Mar de esgoto

Mais de um milhão jogam esgoto na baía de Vitória

Meus filhos já tiveram diarreia, febre e coceira no corpo porque acabam pisando na água suja. No posto falam que é por causa do valão Graciele, mãe de Carol

Natália Bourguignon
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Vilmara Fernandes
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Fotos: Marcelo Prest

A pequena Carol, de 3 anos, ainda não entende porque chamam o local onde mora de “a casa do esgoto”. Mas ela e os três irmãos sofrem as consequências de viver em um local onde os dejetos são lançados na rua. “Ela foi mordida por rato e a irmã já foi internada duas vezes”, conta a mãe, a dona de casa Gracieli Ferreira, 30 anos.

A família partilha dois cômodos e um banheiro em Barramares, o mais populoso bairro da Grande Terra Vermelha, em Vila Velha. Há mais de dez anos, relata a mãe, a fossa em frente a sua casa – coberta por um colchão – encheu. Desde então, o esgoto corre por uma vala em direção a rua, onde formou uma poça que impede a passagem dos carros. Foi assim que a moradia de Carol conquistou o apelido.

A família, como mais de um milhão de pessoas na Grande Vitória, dá o mesmo destino ao esgoto que é produzido: tudo vai parar na rua ou em valas cavadas pela própria população, que corre a céu aberto. Ou lançam mão de ligações clandestinas para as galerias pluviais, canais, rios e mangues.

Locais onde são despejados, por ano, cerca de 66 bilhões de litros de esgoto, o que equivale a dois mil litros ou a 104 baldes por segundo, cheios urina, fezes, restos de comida, sabão e todo tipo de sujeira. Um exemplo do resultado dessa poluição está na baía e praias de Vitória, com locais impróprios para banho.

Realidade

De acordo com estudos do Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS), de 2013, o Espírito Santo é o que tem o menor índice de coleta de esgoto na Região Sudeste, com 41,93% da população atendida. Do que é coletado, trata 77%. Bem distante de São Paulo, com o maior índice de coleta e onde 75,39% da população é atendida. Um cenário que vários projetos de saneamento tentaram mudar, mas estamos longe de uma realidade de cidades com esgoto totalmente tratado. Até 1993, quando foi lançado o primeiro deles, a cobertura de esgotamento na Grande Vitória, segundo a Cesan, era de 20%. Hoje é de 57%, com dejetos tratados para 44% da população. Agrava a situação o fato do país, e o Estado, estarem vivendo os reflexos de uma forte seca, com redução dos volume de água nos rios que abastecem as cidades. Muitos deles sofrem com a poluição do esgoto que recebem das cidades, e já há os que estão praticamente mortos. Para o diretor de Meio Ambiente da Cesan, Anselmo Tozi, o país inteiro demorou a se debruçar sobre a questão do esgoto e a agenda, no Estado, destaca, está atrasada. “O país ainda não se voltou adequadamente para essa agenda. Saneamento precisa de recursos vultuosos e não é uma coisa priorizada no nosso país”, afirma.

Pior

Na Região Metropolitana, Cariacica é a que tem a pior condição. Em 46 dos 95 bairros (43,9%) existe rede de coleta. Mas somente 29,6% das casas e comércios à ela fizeram suas ligações. O restante dos imóveis joga os dejetos em córregos e rios que um dia foram saudáveis. É o caso do Rio Formate, localizado na divisa entre Viana e Cariacica. Suas águas hoje são escuras e densas. Por ele corre, além de esgoto, muito lixo. Poucos têm coragem de se banhar em suas águas. Em muitos trechos, os peixes morreram e o que deles restou se mistura ao lixo. O cheiro no local é indescritível. “Na hora do almoço é ainda pior”, conta Alessandro Silva, 44 anos, auxiliar de serviços que mora em suas margens, no bairro Operário, em Cariacica.

O perigo aqui é constante. Teve até uma criança que morreu em 2013 com a doença do rato Almir dos Santos, 45 anos, porteiro

  São comunidades que vivem uma realidade que parece medieval, e que acabam sujeitas a graves problemas de saúde, como hepatite, diarreia, verminoses. Doenças que poderiam estar erradicadas, não fossem as condições sanitárias inadequadas. Por mais cuidado que as famílias tenham, relata a agente de saúde de Barramares Camila Nunes, suas crianças acabam pisando nas águas sujas. “Por aqui é comum atender casos de crianças com diarreia”, diz.

Lixo

Aliado a isso há o acúmulo de lixo que estimula a presença de insetos, roedores e de outros animais, também causadores de doenças graves, como a leptospirose. O grande temor do porteiro Almir dos Santos, 45 anos, que vive com suas seis filhas em uma casa com “vista” para um dos maiores valões de Barramares. “O perigo aqui é constante. Teve até uma criança que morreu em 2013 com a doença do rato”, lembra Almir. Na Grande Vitória ainda existem alguns valões na Capital, mas eles são mais comuns nos bairros periféricos. Locais onde a precariedade tira não só o direito a uma vida digna, mas também os sonhos. Gracieli, mãe de Carol, não consegue nem esboçar seus desejos para o futuro dos filhos. Prefere mostrar o quartinho que está sendo construído para as crianças e que espera concluir. Um sonho que parece distante, assim como a solução para a fossa, que continua vazando. Tudo depende dos parcos recursos da família: os R$ 150 que o marido Elivaldo, um ajudante de pedreiro, recebe, somado aos R$ 400 do bolsa-família.

Em Vitória, 65% do esgoto é tratado

Em 17 bairros não há coleta dos dejetos, segundo Cesan A vista da casa do cabeleireiro Jânio Pereira, 44 anos, é fantástica. De lá é possível avistar a baía Noroeste de Vitória. Mas o mesmo não se pode dizer do cheiro. No alto de Santos Reis, onde ele vive, o esgoto escorre das casas pela pedra até o fundo de imóveis como a Policlínica e o DPM de São Pedro, às margens da Rodovia Serafim Derenzi. “É a alternativa que temos”, relata Jânio. Um problema que não é comum só nos bairros carentes. Na Praia de Camburi, também em Vitória, há pelo menos dois esgotos correndo a céu aberto. Um deles fica ao lado de um quiosque revolta a cantora Eliana Rocha. “Um absurdo, espanta até os turistas”, desabafa. Ela e o filho se recusam a frequentar certos trechos da praia com receio da contaminação da água. Os dois casos são exemplos de que Vitória ainda não conseguiu alcançar o título de cidade onde o esgoto é totalmente tratado. Cerca de 65% dos imóveis da cidade – comércio e residências – contam com coleta e tratamento dos dejetos. A cidade é a que tem a melhor cobertura entre os municípios da Grande Vitória. Há coleta disponível em 61 dos 78 bairros. Mas mesmo nestas regiões, há mais de 19 mil imóveis que não fizeram suas ligações à rede. É o que apontam as estatísticas da Cesan de 2014. Casas e comércios que dão aos seus dejetos o mesmo destino dos moradores dos 17 bairros que não possuem coleta: jogam nas ruas ou valões, ou fazem ligações à rede pluvial, destinada à escoar água da chuva, e que acaba, inevitavelmente, no mar. Um exemplo vem da Grande São Pedro. Quase três anos após do fim das obras do Águas Limpas na região, 17 bairros de lá e da Grande Santo Antônio continuam sem tratamento de esgoto. “Já existe rede no local, mas a estação de tratamento não foi entregue pela prefeitura para que o esgoto recolhido possa ser tratado”, afirma o diretor de Meio Ambiente da Cesan, Anselmo Tozi.

O atraso na conclusão dessa rede ocorreu, explica o diretor, porque foi necessário construir uma nova estação de tratamento do esgoto. Obra que deve atender a 73 mil pessoas e que ficou a cargo da Prefeitura de Vitória, que ainda não a entregou a Cesan.

Enquanto isso, a comunidade convive com o esgoto voltando para dentro de suas casas ou sendo jogado no mangue, como relata o líder comunitário João Batista Venâncio, de Resistência. “Poluição que acaba com os mariscos”, diz, ao lado de uma manilha que joga o dejetos do bairro no mangue.

Descaso

Para o professor da Universidade Federal do Espírito Santo Ricardo Franci Gonçalves, pós-doutor em engenharia sanitária, a situação é longe de ser a ideal. “Estamos na Região Sudeste, em uma Capital, e a situação é essa: muita gente não faz sua ligação à rede de esgoto, prefere continuar com a fossa ou ligar na rede pluvial, que acaba no mar”, afirma.

Em bairros como Mario Cyprestes, Andorinhas e São Benedito, por exemplo, nenhuma residência é ligada à rede de esgoto. Em outros como Santa Lúcia, Fradinhos e Praia do Suá, a taxa de ligação à rede é menor que 40%.

Segundo a legislação ambiental, todas as pessoas que moram em locais com rede de esgoto disponível, tem a obrigação de fazer a ligação com a rede. Quem não tem, deve utilizar fossas sépticas.

A Cesan informou que é de responsabilidade da prefeitura monitorar e notificar as pessoas que não fazem a ligação. “Mas todos precisa ter consciência da importância de fazer a ligação à rede”, afirma Tozi.

No entanto, o esforço para ter 100% do esgoto tratado em Vitória pode não solucionar totalmente o problema. “Dividimos a baía de Vitória com Vila Velha, Serra e Cariacica. Enquanto não houver um esforço universalizado para o recolhimento e tratamento de esgoto, haverá a poluição”, explica Franci.


Esgoto – Vila Velha por GazetaOnline

Descarte

Por ano, estas quatro cidades, somadas à Viana, descartam 66 bilhões de litros de esgoto. Serra tem o maior volume anual: 20,9 bilhões de litros. A cidade tem rede em 75 dos 128 bairros. Mas trata o esgoto de 45,65% dos imóveis.

Vila Velha descarta 16,7 bilhões de litros de esgoto. Lá há rede em 42 dos 95 bairros, mas o tratamento só ocorre em 36,77% dos imóveis, a segunda pior situação da Grande Vitória. Os menores volumes de dejetos descartados são de Vitória (4,3 bilhões de litros de esgoto) e Viana (3,6 bilhões de litros).

A Cesan explica que, na falta de recursos financeiros para colocar rede de esgoto em todos os lugares, alguns bairros e municípios são priorizados. “Escolhemos os locais com maior densidade populacional e que fiquem próximos a bacias hidrográficas, lagoas, rios, mar”, afirma Anselmo Tozi.

Ele explica que já existem projetos para agilizar o processo, tendo em vista a crise hídrica que o Estado atravessa. Em Vitória, a última estação de tratamento deve começar a funcionar no segundo semestre deste ano, segundo a prefeitura. Ela permitirá que todo o município conte com a rede e tratamento de esgoto.

Em Vila Velha, há projetos anunciados de ampliação do sistema de esgotamento sanitário, abrangendo áreas como os bairros da Grande Terra Vermelha e os atendidos pelo sistema Araças, com ampliação do sistema de tratamento. Para os demais bairros não atendidos, está sendo estudada a implementação de uma Parceria Público-Privada (PPP) para ampliação da rede.

Para Cariacica, no sistema Bandeirantes, será ampliado o sistema de coleta de esgotamento sanitário, com previsão de construção de 90 mil metros de redes. A expectativa é de que 108 mil habitantes serão beneficiados em Vila Velha e Cariacica, mas não há previsão de quando as obras serão iniciadas.

Na Serra, aonde a PPP já existe, foi dado um prazo de oito anos para que todo o município seja coberto pela rede de esgoto.

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