Agrotóxicos

Agrotóxicos: alimentos chegam à mesa contaminados

Texto: Patrik Camporez
Fotos e vídeos: Marcelo Prest
Diagramação web: Natália Bourguignon

O agrotóxico, usado de forma indiscriminada, contamina o solo, água e atinge diretamente o homem do campo. Mas quem mora longe do meio rural também sofre as consequências do veneno. Para se ter uma ideia da dimensão do problema, no Espírito Santo, dos 12 alimentos analisados, em 2012, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), nove foram reprovados. Apenas o arroz, a laranja e o tomate tinham a quantidade de agrotóxico permitida por lei.

A abobrinha liderou o ranking dos alimentos com alto teor de veneno. Das amostras, 77,8% estavam contaminadas, segundo as análises. Em seguida, o pepino, com 60% das amostras consideradas insatisfatórias. A lista traz também outros alimentos com altos índices de contaminação: alface (44,4% das amostras contaminadas), abacaxi (44,4%), morango (30%), cenoura (11,1%), feijão (11,1%) e maçã (11,1%).

Algumas amostras tinham um nível tão crítico de veneno que foram consideradas impróprias para o consumo, caso de 10% das uvas analisadas e 11,2% das coletas de alface.

No Espírito Santo, a responsabilidade administrativa do programa de análise cabe à Vigilância Sanitária Estadual, ficando a Vigilância Sanitária de Vitória com a responsabilidade de colher a amostragem no mercado varejista. Depois de recolhidos, os alimentos são enviados aos laboratórios. Os resultados de 2013 e 2014 ainda não foram repassados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), pois, conforme orientação da Anvisa, a divulgação nos Estados deve acompanhar a nacional.

“Os números são importantes para que exista a conscientização do consumidor e produtor. Tem que acontecer a redução ou, pelo menos, o uso correto do agrotóxico”, argumenta Renata Brega, coordenadora da área de alimentos da Vigilância de Vitória.

O veneno no alimento, quando ingerido, tem efeito cumulativo. Isso pode levar quem consome a desenvolver doenças crônicas, principalmente neurológicas, endócrinas, imunológicas, ligadas ao aparelho reprodutor e câncer. Os dados são do Ambulatório de Toxicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em 2013, foram consumidos um bilhão de litros de agrotóxicos no país. Isso significa que, na média, cada brasileiro ingeriu 5 litros de veneno. O Brasil é o maior importador de agrotóxicos do planeta e movimenta R$ 8 bilhões neste mercado todos os anos. São usados, por aqui, pelo menos 14 tipos de venenos proibidos no mundo, dos quais quatro, pelos riscos à saúde, foram banidos no ano passado, embora pesquisadores suspeitem que ainda estejam em uso na agricultura.

Chegada

Os agrotóxicos foram desenvolvidos na 1ª Guerra Mundial e utilizados mais amplamente na 2ª Guerra Mundial como arma química. Com o fim da guerra, o produto desenvolvido passou a ser utilizado como defensivo agrícola. No Brasil, a sua utilização tornou-se mais evidente na década de 60. No pós-guerra, os vencedores articularam uma expansão dos seus negócios partindo das indústrias que haviam se desenvolvido durante o conflito, entre elas a indústria química. Na Europa havia fome, foi então que surgiu a Revolução Verde, que visava a promover a agricultura, gerando comida para os famintos.

No Brasil, esse movimento foi implantado por meio de imposição das indústrias de agrotóxicos e do governo – o financiamento bancário para a compra de semente só era liberado se o agricultor comprasse também adubo e agrotóxico.

Orgânico ganham força em todo o Estado

“Depois de muitos anos abusando do veneno, os casos de tumor e câncer estão aparecendo na nossa região. Como tenho muitos filhos, e a gente passava mal com frequência, deixamos de lado os agrotóxicos”.

A fala é da produtora rural Selene Hammer Tesch, 51 anos, e representa uma tendência constatada por A GAZETA durante a produção desta série de reportagens: depois de sofrerem por causa de casos de intoxicações, famílias de todas as partes do Estado têm abandonado o veneno e partindo para a produção orgânica. “O custo do adubo e do veneno tira o lucro do agricultor. Na agricultura orgânica, deixamos menos dinheiro nas lojas de veneno”, defende o chefe do departamento de agricultura orgânica de Santa Maria de Jetibá, Deolino Buteske.

Defensor implacável da agricultura orgânica, Buteske revela, ainda, um drama pessoal. “Já tive problemas no fígado por causa das pulverizações. Antes, o produtor rural falava que o agrotóxico era igual ao trigo, que podia comer pois não faria nenhum mal”, comenta.

Associações de produtores se multiplicam no Estado para organizar a produção e a venda nas feiras da Grande Vitória. Somente em Santa Maria de Jetibá, na Região Serrana do Estado, duas associações já reúnem 70 famílias, que deixaram a agricultura convencional. Há dez anos, eram somente 20 famílias.

No caso de dona Selene, uma área do tamanho de quatro campos de futebol é suficiente para cultivar 85 variedades de alimentos durante o ano e garantir a renda da família. “Não forçamos o alimento, produzimos só na estação adequada”, revela. Numa propriedade próxima, o produtor Lorival Haese, 61, também tem como segredo a diversificação. Mas o veneno já assustou o produtor. “Se eu não tivesse parado (de usar o veneno), talvez nem estaria vivo, falando com você. Já vi muita gente morrer por causa de venenos contrabandeados”, conta.

Em Marechal Floriano, um programa foi criado pela prefeitura para orientar quem ainda não entrou no ramo dos produtos orgânicos, orientando a fazer o uso consciente dos agrotóxicos. Nas regiões Norte e Noroeste do Estado, cerca de 490 famílias ligadas ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) já aderiram ou estão em processo de adesão ao movimento orgânico. Tanto que um Mercado Popular de Alimentos foi fundado, em São Gabriel da Palha, onde os alimentos são comercializados. “Tem aumentado muito os casos de câncer na nossa região. Com isso, as pessoas têm procurado o orgânico”, afirma Deuzira Conte, 39, coordenadora do mercado.

A demanda é tão grande que, entre os anos de 2010 e 2015, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-ES) capacitou cerca de dois mil trabalhadores para atuar com orgânicos no Estado. “Criou-se um mito de que, sem agrotóxico, não se produz. Mas isso não é verdade”, alerta Bruno Pilon, integrante do MPA.

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1 Responder

  1. Poderiam me explicar como garantirão aos consumidores que os produtos comercializados nas feiras orgânicas são de fato produtos orgânicos?
    Há desconfiança de que os preços são organicos mas os produtos não.

    Grato

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