Agrotóxicos

274 trabalhadores se contaminaram somente em 2013

Texto: Patrik Camporez
Fotos e vídeos: Marcelo Prest
Diagramação web: Natália Bourguignon

Em cada pé de tomate, uma borrifada certeira de veneno. Ao longo do dia, Roberto Matias vai enchendo as plantas com agrotóxico e, ao mesmo tempo, contaminando a si próprio. São 15 anos atuando sem nunca ter recebido qualquer equipamento de proteção dos seus empregadores. “Teve um dia que eu desmaiei na roça. Fui socorrido por um colega e por pouco não morri. Minha memória se foi, assim como minha saúde”, lamenta, esboçando sentimentos de culpa, o trabalhador.

Flagrada por A GAZETA durante a investigação que deu origem a esta série de reportagens, a situação acima retrata a dura realidade vivida pelos trabalhadores do campo capixaba. Oito municípios com altos índices de contaminação foram visitados durante uma viagem de mais de 1.500 quilômetros, sendo que em todos a reportagem apurou uma série de irregularidades no trabalho.

Só para dar uma ideia, o uso irregular dos venenos no Estado resultou na exposição ou intoxicação de 274 trabalhadores somente no ano de 2013. O número representa 28% dos 971 casos registrados pelo Centro de Atendimento Toxicológico do Espírito Santo (Toxcen) no mesmo ano. Tanto nas pequenas propriedades, onde a família costuma realizar a pulverização, quanto nos médios e grandes latifúndios, onde funcionários fazem o serviço, estima-se que 90% das aplicações são feitas sem nenhuma proteção ou apenas com o uso de parte dos equipamentos de segurança.

Sofrimento

Moradora de Pinheiros, no Extremo Norte do Estado, dona Nilda da Silva lembra com emoção de quando o marido, doente há 10 anos, ainda tinha forças para andar. Hoje, com 73 anos, Emanuel Gomes Ferreira está encostado pela Previdência. “Um ano e meio batendo veneno no eucalipto foi suficiente para a saúde dele complicar. Se ele não saísse de lá, iria morrer”, relata.

De acordo com Paulo Rocha, chefe da seção de inspeção e fiscalização vegetal do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf), o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) é quem deveria cobrar, nas áreas rurais, o uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). “Mas essa fiscalização não tem sido realizada. O que mais encontramos no interior são trabalhadores sem proteção”, alerta Rocha. Além do mais, completa ele, tem a questão do clima: “É um kit de equipamento não adequado para o calor. Causa incômodo, e ninguém usa”, critica.

Por outro lado, o MTE alega que fiscaliza, mas admite que dá prioridade aos latifúndios de médio e grande portes. “O maior problema está nos minifúndios, que, em regra, tem regime de agricultura familiar. Quase sempre, não é o trabalhador empregado que está se envenenando. É o pequeno produtor”, afirma Alcimar Candeias, superintendente-adjunto do MTE.

Candeias reforça que a fiscalização nos minifúndios foge das prioridades da instituição. “Hoje, o trabalhador mais desassistido do país é o assalariado. E nosso foco de atuação está principalmente nas propriedades que têm empregados”, justifica.

As irregularidades na aplicação e venda de veneno resultaram, em 2014, na autuação de 79 revendedores e 46 propriedades rurais, feitas somente pelo Idaf. O comércio de agrotóxicos sem autorização e a aplicação em desacordo com a receita agronômica foram as principais irregularidades encontradas.

“Muitas vezes, a loja vende um produto para o café, mas o produtor está usando na pastagem”, exemplifica Paulo Rocha.

Desde 2008, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos no mundo. A utilização maciça desses produtos traz como consequências graves problemas à saúde dos trabalhadores e de toda população, além danos à natureza, destruição da fauna e flora, e poluição das águas, solos e do ar.

Medicina natural para cuidar de trabalhadores envenenados

Não são poucos os trabalhadores que fazem uso da medicina alternativa para cuidar das intoxicações ocasionadas pelo uso indevido dos agrotóxicos. Como os postos de saúde quase sempre estão a quilômetros de distância de casa, as plantas medicinais acabam sendo a primeira opção do trabalhador, afirma Dilzete dos Santos, de 48, moradora do distrito de Fátima, em Jaguaré. “Eu me trato com carvão vegetal desde quando me contaminei na lavoura de café, há três anos”, relata.

As intoxicações são tão comuns no Noroeste do Estado, que um casal de terapeutas naturistas abriu as portas do sítio somente para cuidar de agricultores contaminados com o veneno. Fica na localidade de Castelan, interior de São Gabriel da Palha. “Já vivenciamos casos assustadores. Muitas pessoas que nos procuraram não acreditavam que o agrotóxico fazia mal”, dizem Hilário e Angela Matielo.

Há 15 anos atuando com técnicas de desintoxicação, o casal alerta que o nível de veneno é cumulativo no organismo. “Já tivemos um caso de um agricultor que faleceu depois de tanto se contaminar. Quando ele chegou até nós, já estava em uma situação grave, e foi fatal. Antes de morrer, ele reconheceu que aquela situação estava acontecendo por causa dos agrotóxicos, e chorava arrependido”, lembra Hilário.

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1 Responder

  1. Trabalho numa Escola Agrícola e fazemos de tudo para mostras aos nossos alunos o quanto é perigoso usar agrotóxico. Ensinamos receitas naturais, mas não tem jeito. O agrotóxico é predominante. Essas reportagens são extremamente interessantes, pois existem agricultores, como por exemplo meu pai, que não aceita outro tipo de produto a não ser o químico e claro não utiliza EPIs e fala que nunca vai acontecer com ele. Comemos agrotóxicos e não verduras e frutas. Lamentável.

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