Agrotóxicos

Uma pessoa tenta se matar por dia usando agrotóxicos

Plantava tomates e usava 4 ou 5 venenos de uma só vez, sem saber direito o efeito de cada um. Não usava proteção até que um dia senti tontura e caí. Meu corpo doía todo, meu coração batia acelerado e meus olhos dilataram Agricultor da Região Serrana

Texto: Patrik Camporez
Fotos e vídeos: Marcelo Prest
Diagramação web: Natália Bourguignon

A cada 24 horas, uma pessoa tenta suicídio no Estado ingerindo agrotóxicos de uso agrícola. Foram 404 casos somente em 2012, último ano em que o Centro de Atendimento Toxicológico do Espírito Santo (Toxcen) divulgou esses dados. Numa conta por 100 mil habitantes, esse é o maior índice do país.

Um dos principais fatores para que estes produtos sejam bastante usados por quem atenta contra a própria vida é a facilidade com que se pode comprar o agrotóxico. A maior parcela desses suicídios se dá em zonas rurais, onde é mais fácil o contato com o veneno, cada vez mais abundante. São em média 20 mortes por ano no Estado. Em alguns municípios percorridos para elaboração desta série de reportagens, A GAZETA constatou que a venda dos venenos acontece livremente, sem a necessidade da apresentação de receituário ou registro das propriedades exigidos pela legislação.

Ainda não se sabe se o uso de agrotóxicos está diretamente ligado aos suicídios, mas especialistas apontam que, em contato com o corpo, alguns venenos agem no sistema nervoso central, podendo levar à depressão. Esse quadro, aliado a uma série de problemas econômicos e sociais, poderia levar ao suicídio, sendo o próprio produto utilizado pelo trabalhador para tirar sua vida. “Por serem consideradas substâncias neurotóxicas, podem sim gerar ou agravar a depressão”, avalia o ex-gerente da Anvisa e atual pesquisador da Fiocruz, Luiz Cláudio Meirelles.

Nos últimos anos, pesquisas realizadas por universidades de diversos Estados, incluindo a Ufes, identificaram elevados índices de suicídio em municípios com alto consumo de agrotóxico. Em 2012, ano em que foi divulgado o último balanço do Toxcen, os casos tentativas contra a própria vida representaram 47,5% do total de intoxicações no Espírito Santo.

Para Meirelles, é papel do Estado agir para evitar que os agrotóxicos sejam vendidos indiscriminadamente. “Tem que ter um papel regulador, pois consumidores, trabalhadores, a população em geral está exposta ao perigo. E o ser humano não tem um sistema imunológico resistente ao uso de tantas substâncias ao mesmo tempo”, explica o estudioso.

Invalidez

“Até hoje, dois anos depois, meu tio não dorme direito e tem alucinações. Por pouco não morreu, hoje não consegue trabalhar”, lamenta uma sobrinha de Antônio (nome fictício, para não expor o trabalhador rural), morador de uma cidadezinha do Norte do Estado que tomou veneno um mês depois de ver o filho morrer contaminado.

Assim como Antônio, cerca de 10% das pessoas intoxicadas ficam definitivamente incapacitadas para o trabalho. Em média, a cada ano cerca de 800 capixabas sofrem algum tipo de intoxicação por uso de agrotóxicos, número que coloca o Espírito Santo em primeiro lugar no triste ranking nacional da contaminação.

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A perda da memória e a impotência foram as piores sequelas. 30 anos depois da primeira contaminação ainda fico semanas sem ter ereção. É difícil para um homem. Tem muita gente que sofre calado por causa dos agrotóxicos

Câncer, problemas de visão e impotência atormentam as vítimas

“Trinta anos após à primeira intoxicação, ainda fico semanas sem ter ereção”, desabafa um produtor rural da região Serrana que não quer ser identificado. Além de impotência, a exposição aos agrotóxicos está relacionada a males crônicos como câncer, desequilíbrio hormonal, perda visual, problemas respiratórios e depressão, aponta o Protocolo de Atenção à Saúde dos Trabalhadores Expostos a Agrotóxicos, elaborado pelo Ministério da Saúde.

São doenças que podem se manifestar ao longo dos anos e provocar uma morte lenta e silenciosa. Doutor em Entomologia e pesquisador do Incaper, David Martins explica que é comum o trabalhador rural não perceber que está adoecendo. “Quando a intoxicação é aguda, o trabalhador desmaia e cai. Só que a maior parte das pessoas vai se intoxicando aos poucos. O agrotóxico vai acumulando, um dia as funções do corpo são danificadas”, argumenta.

Experiente pesquisador da agricultura capixaba, Martins destaca que o machismo no campo e resistência ao uso dos equipamentos de segurança contribuem para o agravamento das contaminações. “Tem gente que ainda acha que pode beber ou encostar a mão no veneno. Mas, quando a gente fala que vai afetar a virilidade, o sujeito pensa duas vezes e passa a se proteger”, constata o pesquisador.

A intoxicação crônica caracteriza-se pelo surgimento tardio das doenças, após meses ou anos, por exposição pequena ou moderada a produtos tóxicos. Esse contato com o veneno ao longo dos anos pode acabar em danos irreversíveis.

Intoxicação aguda

Já a contaminação aguda provoca sintomas quase imediatamente após à exposição ao veneno. A pessoa intoxicada pode apresentar lacrimejamento, salivação excessiva, alteração da visão, além de manifestações cardíacas. Alterações neurológicas como fraqueza muscular, tremores, paralisia e convulsões também podem ocorrer. “Por esse motivo pode ocorrer falência respiratória, acarretando a morte”, alerta o mesmo protocolo do Ministério da Saúde.

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Para Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Fiocruz, boa parte da população rural ainda não está consciente de que agrotóxico é veneno. “São feitos para matar pragas, mas podem matar seres humanos”, alerta.

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