Agrotóxicos

Rastro de morte e contaminação por agrotóxico

Quando olhei no espelho não me reconhecia. Estava totalmente desfigurada.No hospital, fiquei apagada e não conseguia reagir. Maria do Carmo

Texto: Patrik Camporez
Fotos e vídeos: Marcelo Prest
Diagramação web: Natália Bourguignon

Nova Venécia, Norte do Estado, 2013. O estudante Carlos Pinho, de 15 anos, levanta da cama às 4 horas, coloca a bomba de veneno nas costas e caminha até a propriedade de um vizinho para pulverizar lavouras de café. Depois de um dia intenso de trabalho, sem usar luvas e máscaras de proteção, o rapaz tem convulsões, desmaia, e não volta para a casa da sua mãe. Carlos morreu 10 dias depois.

Interior de Vila Valério, ainda no Norte. Vagner Capaz tinha acabado de completar 17 anos quando comeu um pedaço de melancia contaminada com agrotóxico. Duas semanas depois, faleceu no hospital. Seu pai entrou em depressão nos meses seguintes, e a mãe, Dona Maria Idefonso, ainda acorda todas as noites achando que o filho está batendo na porta de casa.

Também vítima do veneno, Maria Geralda do Carmo seguia pela BR 101 quando, na altura de Conceição da Barra, um avião que pulverizava uma plantação de feijão despejou várias rajadas de veneno em cima do carro onde ela estava com outras duas pessoas. Ela sofreu queimaduras, o rosto ficou desfigurado e o veneno no corpo a deixou em coma por dois dias. Maria, que por ironia do destino é conselheira estadual de Alimentação e Nutrição, até hoje carrega sequelas no corpo.

Aparentemente casos isolados, os relatos acima são de apenas uma parte dos mais de 6 mil capixabas que sofreram intoxicações por uso indiscriminado de agrotóxicos agrícolas na última década. Nas últimas semanas, A GAZETA aprofundou-se numa investigação que percorreu 1,5 mil quilômetros pelo interior do Estado e ouviu histórias de homens e mulheres que sofreram contaminação, chegando a desenvolver doenças como câncer, infertilidade, impotência e depressão.

maria-capaz.jpg
Marla e Altair viram o filho, Vagner de 17 anos, falecer por conta da contaminação por veneno

Os últimos números da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Centro Estadual de Atendimento Toxicológico (Toxcen) elevam o Espírito Santo ao triste primeiro lugar no ranking nacional das contaminações e mortes por uso desses venenos (conta feita por 100 mil habitantes). Só para dar uma ideia, a quantidade de vítimas em solo capixaba é seis vezes maior do que no Estado vizinho, Rio de Janeiro.

A situação é tão séria que própria Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) admite, em seu plano de saúde 2012/2015, que “é preocupante no Estado o consumo de agrotóxico”. Em 2009, o uso ultrapassou 5 mil toneladas de princípios ativos (59% herbicidas) em 726.017 hectares de área plantada.

Entre os agravantes que colocam o Estado nesta incômoda posição, estão a falta do uso de equipamentos de proteção, aplicação de doses de agrotóxico acima da quantidade indicada e a venda de produtos sem receita. No campo, faltam informações sobre o perigo dos venenos e também atendimento adequado às vítimas.

Trabalhadores

A maior parte das vítimas é de trabalhadores analfabetos ou quase. Pessoas que muitas vezes sequer conseguem ler a bula dos produtos. São homens na faixa de 18 a 45 anos acostumados a aplicar o veneno sem qualquer proteção. A intoxicação, no entanto, não atinge apenas quem entra em contato direto com o veneno, como aplicadores e os responsáveis pelo transporte e armazenamento. Faz vítimas que não têm nada a ver com a produção agrícola, como a conselheira Maria Geralda, que saiu de Vitória a caminho de dois eventos no Norte e nem imaginava o que estava por vir.

Ela estava no banco de trás do carro e foi a mais atingida pelo veneno despejado pelo avião agrícola. Passados alguns dias, a conselheira não conseguia andar. “Acordei, olhei no espelho e não me reconheci. Estava totalmente desfigurada. Fiquei apagada, com os médicos tentando me reanimar. Escutava minha mãe me chamando, mas não conseguia abrir os olhos nem reagir”, conta Maria, que, na época, também perdeu todo o cabelo e até hoje vive à base de remédios.

Em muitos casos, a pessoa contaminada demora a associar os sintomas à exposição ao veneno, e chega ao hospital já em estado crítico. No caso de Vagner Capaz, a família precisou levar o estudante três vezes ao médico. O rapaz só recebeu mais atenção do serviço de saúde quando já não conseguia mais comer. A mãe, dona Maria Idefonso Capaz conta que a morte chegou três dias após a última ida ao hospital. “Meu filho já estava duro, não mexia nem o pescoço. Intoxicou todo o rim. Quando foi de madrugada, a notícia chegou, mas parece que até hoje ele está aqui comigo”, diz a mãe, com uma voz arrastada de choro.

Triste avanço

O Espírito Santo figura entre os Estados com maior consumo por pessoa de agrotóxicos, e a falta de políticas públicas específicas de combate ao problema permite que o índice de contaminação suba ano a ano no Estado. Em 1999, 228 capixabas sofreram contaminação e sete morreram. Em 2013, foram registrados 961 casos de exposição ao veneno e 20 mortes. Um salto de mais de 400% em 14 anos. Mas os dados podem ser ainda mais alarmantes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, para cada registro de intoxicação por agrotóxico, outros 50 casos deixam de ser notificados.

mdv_info-regioes

Depois de viajar de Norte a Sul do Estado e passar por oito municípios que registram alto consumo de veneno, esta série de reportagens vai mostrar como o uso indevido desses produtos envenena pessoas, rios, animais, o solo e os alimentos que chegam à mesa do consumidor.

almir.jpg
Contaminado: Almir Soares da Silva tem 50 anos e vive com a ajuda de vizinhos. Ele não pode trabalhar e não consegue se aposentar

Na vila dos contaminados, uma vítima em cada esquina

Quando algum trabalhador chega no postinho de saúde tendo convulsões, soltando água pelo corpo ou com manchas vermelhas na pele, a técnica de enfermagem Maria Ivone de Jesus, que trabalha em Taquara, Pedro Canário, já sabe: “É veneno!”. Localizada na divisa do Espírito Santo com a Bahia, a “Vila dos Contaminados” exemplifica a realidade dos diversos focos de intoxicação visitados pela reportagem de A GAZETA no Estado.

“Aqui é terra de ninguém. Não tem uma pessoa que recebe a roupa de proteção para bater veneno”, vai avisando a primeira entrevistada, mãe de um trabalhador contaminado na plantação de banana. E é verdade. A cada esquina, a equipe de reportagem encontrou um novo morador com história de contaminação para contar. Foram 10 relatos apenas nas primeiras horas de caminhada pela vila. Não foi preciso andar mais de 100 metros entre a casa de uma e outra vítima do veneno.

“Certo dia, fui todo cheio de calombos para o hospital. Voltei para casa vomitando, com febre e dor de cabeça. Fiquei doido, tirava a roupa perto das pessoas, defecava sangue”, revela Almir Soares da Silva, de 50 anos, que também teve os problemas na coluna agravados por causa da bomba de veneno que carregava nas costas. Mesmo com a coluna atrofiada, Almir não consegue aposentadoria por invalidez e vive da ajuda de vizinhos.

Durante as entrevistas, os moradores iam se lembrando dos últimos casos de contaminação. Há seis anos, Sivaldo de Jesus, de 60 anos, parou de mexer com veneno por causa das dores de cabeça e das manchas que começaram aparecer na pele. “Tem muita gente contaminada aqui na vila. O camarada morre sabendo que é porque não usava proteção”, afirma Sivaldo.

Experiente quando o assunto é o atendimento de trabalhadores contaminados e com 29 anos de atuação na região, Ivone identifica de imediato os sintomas do veneno . “O cheiro do produto nas pessoas é forte. Chegam tendo convulsões, vomitando e soltando água do corpo. Isso é comum aqui. Encaminho para o hospital”, observa ela.

Um dos moradores atendidos pela técnica de enfermagem da vila foi o aplicador Adalberon da Silva Araújo, de 47, que conversou com a reportagem rodeado pelas suas bombas de veneno. “Tem produto que é tão forte que preciso jogar a roupa fora. Por causa deles já fui parar no médico três vezes, perdi a sensibilidade das costas e as unhas dos pés”, diz ele, que também costuma recrutar “turmas” de diaristas para aplicar os agrotóxicos nas propriedades dos fazendeiros da região. Adalberon mora com a mulher e os filhos numa casa simples. Apesar de atuar há 25 anos com as substâncias tóxicas, o único equipamento de proteção adquirido nesse tempo, um kit com máscara e roupa especial, nunca foi usado. “Um dia penso nisso”, diz.

Já perdi as unhas dos pés e a sensibilidade nas costas. É uma vida sofrida, já fui parar no hospital várias vezes. Aqui ninguém usa a roupa certa para bater o veneno Adalberon Araújo

A vila

A produção agrícola alavanca os indicadores econômicos de Pedro Canário, mas não consegue tirar da pobreza os trabalhadores rurais de Taquara e comunidades vizinhas, que precisam se esforçar para viver com uma média salarial de R$ 289,33, uma das mais baixas do Estado, segundo o último censo do IBGE. Ao chegar à vila, as ruas de chão batido e esgoto a céu aberto prenunciam um situação que vai muito além das intoxicações.

Faltam serviços públicos básicos. A população não conta com praça ou qualquer espaço de lazer. Uma creche foi inaugurada pela prefeitura há dois anos, mas nunca funcionou. Quando adoecem por causa do veneno, os trabalhadores não têm a quem recorrer. A unidade que recebe os doentes não conta com ambulância e o médico só aparece de vez em quando.

Boa parte dos 800 moradores trabalha na clandestinidade, sem carteira de trabalho assinada. Diante desse quadro, são comuns os relatos de pessoas que adoecem por conta do veneno e não recebem nenhum auxílio. Trabalhadores como o filho da aposentada Maria Alves dos Santos, de 65 anos, que não recebia equipamentos de proteção do empregador e nem possuía carteira de trabalho assinada, e acabou foi contaminado numa plantação de banana.

“Chegou em casa exalando veneno, tremendo e vomitando sem parar. Fiquei desesperada, pois achava ele ia morrer. Só dizia ‘estou intoxicado mãe, me ajuda’”. Sem receber pelos dias parados, o filho descumpriu a orientação médica e voltou ao trabalho. “Ele não pode ficar sem esse dinheiro. É proibido mexer com veneno, mas trabalha mesmo assim”, admitiu a aposentada, entrevistada enquanto o filho estava no campo.

Por meio de nota, a Secretaria de Estado de Saúde atribui o alto índice de notificações ao fato de o Espírito Santo ser “o único estado do país que faz a busca ativa”, ou seja, contabiliza os casos de ligação para o Toxcen e os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, além de ir ao locais e investigar os prontuários, evitando subnotificações.

Crianças e adolescentes também são vítimas do trabalho com veneno

Adonias Costa de Souza tinha apenas 13 anos quando foi aliciado para bater veneno em plantações de mamão e café no extremo Norte do Estado. O jovem decidiu parar depois de 10 anos, mas a essa altura o veneno já tinha começado a corroer a sola dos seus pés. O relato de Adonias se confunde o drama de outras centenas de adolescentes e crianças que, por falta de estrutura e dificuldades financeiras enfrentadas pela família, encaram logo cedo o trabalho pesado com o veneno.

O último levantamento do Toxcen identificou 14 crianças de 10 a 14 anos e 81 adolescentes de 15 a 19 anos que tiveram exposição ou vieram a se intoxicar com venenos de uso agrícola. Isso não quer dizer que todas essas contaminações aconteceram no campo. No entanto, de canto a canto do Estado, A GAZETA ouviu depoimentos de pessoas que começaram a bater veneno antes mesmo de completar 16 anos. “Meu pai me levava para a roça, mas ele não sabia que o agrotóxico fazia mal”, lamenta um agricultor da Região Serrana, hoje com 20 anos.

A situação do trabalho infantil é tão presente que atualmente o Ministério Público do Trabalho (MPT) possui 26 procedimentos em aberto relacionados a trabalho infantil no Estado, boa parte dessas denúncias oriundas de regiões agrícolas. “São constantes os relatos de crianças nessa situação. Antes dos 18 anos não é permitido trabalhar com agrotóxico. É muito grave”, destaca o procurador do trabalho, Bruno Fonseca.

No caso de Adonias, até hoje o jovem recebe acompanhamento médico e toma injeções toda semana por causa dos efeitos do veneno. “Se não tiver dinheiro para ir ao médico, o sujeito morre”, desabafa ele.

leia mais:

21 Respostas

  1. Muito boa a materia, mas ficou devendo um capitulo sobre a produção de eucalipto, que hoje representa a maior concentração de agroitoxicos diversos, tanto na produção quanto na colheita.Existem dezenas de denuncias sobre doenças crônicas (cegueiras) e mortes. De qualquer forma, parabéns pela materia.

  2. O grande problema do uso indevido e indiscriminado de produtos agrotóxicos é a própria legislação fraca e que visa somente a venda, sem preocupação com os usuários, que na maioria das vezes não possuem instrução.
    A lei diz que é responsabilidade do USUÁRIO de produtos agrotóxicos, seus componentes e afins, INFORMAR ao emitente do receituário agronômico, o nome da cultura, o local de aplicação, o número de pés ou área total de cultura ou volume a ser tratado ou expurgado.
    Como os usuários irão se informar, ou mesmo ler o receituário e aplicá-lo, se em sua maioria são analfabetos?
    Na minha opinião todos os usuários de agrotóxicos, deveriam possuir treinamento fornecido pelo governo e bancado pelos fabricantes de agrotóxicos.

  3. Esses são apenas os casos das pessoas que fazem utilização dos agrotóxicos sem a proteção requerida.
    E como ficam os consumidores desses produtos contaminados??
    Qual é a proteção que os fabricantes de agrotóxicos nos recomendam???
    Não é sem justificativa que os casos de câncer e outras doenças têm aumentado tanto nas últimas décadas.

  4. Tive uma intoxicação em 1976 no Centro de Referencia de Carapina que me deixou com depressão por quatro anos de cama. Quando descobrimos que estava contaminada junto com colegas que junto comigo trabalhava no mesmo Centro que eu , que hoje não estão mas conosco. lutamos e conseguimos que a Procuradoria Federal nos representasse. ganhamos a causa mas ate o dia de hoje não recebemos as indenização que foi ganha .
    mas que muitos já estão mortos e outros manifestam cancera a unica coisa que queremos é mas agilidade nos prossesos que a 13 anos estão com Juízes para nos indenizar . as medicações a Prefeitura da Serra tem nos fornecido de modo decentemente regular o estado nos aposentou em 2003 acidente de trabalho mas estamos na justiça para receber indenização . e seguros que pagamos ao longo anos de serviço (hoje estou presigando transplante de corneá, e viver mas tranquilamente para que os últimos dias que nos resta seja mais decente pois a saudê já não temos mais ” Queremos que a Justiça seja cumprida já que os culpados não forão punidos )

  5. Gostaria de saber, se existe algum órgão na minha cidade, que poderia avaliar uma determinada localidade, frequento uma região onde vejo o uso indiscriminado de agrotóxicos, sou de Colatina ES.

  6. Os órgãos competentes do estado, tem que tomar providências urgentes e severas, criando uma política de uso dos agrotóxicos e sua fiscalização, se não vai continuar morrendo mais trabalhadores rurais.

    • Bom dia Jorge. O órgão responsável por essa fiscalização é o IDAF. E está presente em todos os municípios. Basta ir ao escritório e denunciar o local de aplicação irregular que os técnicos irão apurar. Ou faça a denúncia pelo site http://www.idaf.es.gov.br no fale conosco que os técnicos irão apurar. Na denúncia é importante informar o local de aplicação e o nome do aplicador

  7. É muito preocupante, pois não existe nenhum controle na venda desse produtos, e as pessoas que utilizam não tem o mínimo de informação a respeito dos riscos que estão correndo, quem aplica e que consome esses produtos, acabam todos contaminados.

    • Valtemir, creio que você esteja desinformado sobre a legislação. Ela existe sim, e há controle de venda por parte do IDAF, que é presente nos 78 municípios do ES.
      Ninguém pode alegar que não há orientação a cerca da utilização dos produtos. Inclusive muitos vão “atrás” de produtos proibidos, pois são mais fortes, e podem fazer um efeito mais rápido na lavoura.
      E o que o Estado vai fazer com pessoas que querem andar fora da linha? Que persistem em comprar coisas proibidas? Que não usam a roupa adequada, pois é “pesada”? Que diz que seus pais, avós e outros mais antigos não usam proteção e estão vivos até hoje? Acima de todas as coisas, as pessoas precisam querer fazer as coisas corretas.

  8. Bom dia,

    Li a reportagem e percebi vários trechos tendenciosos, dados imcompatíveis com o título e linha de raciocínio da reportagem.

    Vamos lá.

    1º – O problema de uso indiscriminado de agrotóxicos é sério, traz grandes prejuízos à saúde, porém, ocorre por erro dos empregadores, que não fornecem EPI e por falta de instrução dos seus funcionários, por omissão do governo, que não fortalece os órgãos de pesquisa e extensão, os quais deveriam dar suporte ao produtor, mas não fazem por falta de pessoal;

    2º – Outro erro grave do governo é a fiscalização que não existe, falta de instrução no campo, treinamentos, etc. O trabalho infantil é outro problema que o governo fecha os olhos;

    3º – Outro vício na reportagem é não ouvir todas as partes envolvidas no problema. Porquê não se ouviu um especialista em aplicação de defensivos agrícolas (agrotóxicos)? Deveria-se mostrar as soluções para o problema;

    4º – Quando se compara a quantidade de contaminação no ES em relação ao RJ, deveria ser feito uma pergunta: Qual a representatividade do setor agrícola do RJ? Faltou buscar mais informações, o ES é o estado mais diversificado em agricultura do Brasil, maior produtor de café conilon, pimenta do reino, celulose, côco verde, dentre outros;

    5º – No total foram 904 casos de intoxicação em 2013. O que me assusta é o fato da região metropolitana (área não rural) ter a maior quantidade de intoxicação. Ora, mas não é por causa das aplicações de agrotóxicos? Como uma região metropolitana teria tantos casos? Simples, contabilizando os casos de tentativas de suicídos e colocando tudo na conta dos agrotóxicos, agricultores, profissionais, trabalhadores. A região norte, onde se concentra a maior parte da agricultura do estado, apenas (em relação à metrópole) 82 casos;

    6º – Depois de passar por 8 municípios e registrar alto consumo de agrotóxicos, por qual motivo não foi divulgado o nome do município, pois assim, os envolvidos podem ter ferramentas para solucionar tal situação?;

    7º – Conheço a localidade de Taquaras. A exploração do trabalhador é grande, posso afirmar sem dúvidas que é o local mais carente do estado. A falta de políticas assistenciais do governo, saúde, educação, etc, fazem parte da rotina daqueles moradores. A solução desse problema neste distrito é social, falta investimento do poder público lá. É a sensação de estar em outro mundo. No caso de intoxicação, a pessoa precisa ser avaliada por um médico em São Mateus, a quase 100 km de distância, pois na localidade não tem médico, vai uma vez no ano;

    8º – Vale ressaltar que, por menor que seja o grau de instrução de um trabalhador, ele sabe que o produto faz mal a saúde se não for tomadas as devidas precauções para aplicação. Como foi dito na reportagem, as pessoas sempre voltam para a lavoura, fazem tudo da mesma maneira. Pode-se conferir no trecho …“Tem muita gente contaminada aqui na vila. O camarada morre sabendo que é porque não usava proteção”, afirma Sivaldo.

    Outro trecho comprova a importância que o trabalhador dá para o pouco EPI que tem: …. Apesar de atuar há 25 anos com as substâncias tóxicas, o único equipamento de proteção adquirido nesse tempo, um kit com máscara e roupa especial, nunca foi usado. “Um dia penso nisso”, diz.

    …“Ele não pode ficar sem esse dinheiro. É proibido mexer com veneno, mas trabalha mesmo assim”, admitiu a aposentada, entrevistada enquanto o filho estava no campo.

    9º – A secretaria de saúde confirma que o ES é o único estado do país que contabiliza os casos de licações para o Toxen e dados do SIAN. Os dados de tentativa de suicídio estão entre os contabilizados entre os dados de intoxicação por agrotóxico, fazendo com que haja alteração na estatística. Os dados deveriam ser somente de intoxicações no meio agrícola. 411 tentativas de suicídio foram contabilizadas. Agora sim dá pra entender o elevado número de intoxicações na região metropolitana, REGIÃO NÃO AGRÍCOLA.

    Finalizando, a problemática do uso desenfreado de defensivos (agrotóxicos) deve ser evitada da mesma maneira como o uso de medicamentos anti-depressivos, drogas ilegais que matam muito mais que as intoxicações. É um problema a ser enfrentado pelo governo, órgãos assistenciais como Incaper, Idaf, Iema, proprietários de lojas de vendas de defensivos, profissionais técnicos que atuam na área, universidades, para que haja conscientização no meio rural. Dificuldades existem, mas a unica forma de se superar é unindo forças.

    Um abraço,

    Gilliard Rocha

    • Discordo: Os agrotóxicos não podem ser vistos apenas como um conjunto de substâncias químicas que pode causar riscos químicos à saúde. Eles precisam ser entendidos no contexto em que são utilizados, que envolve o processo de modernização agrícola conservadora em curso no Brasil, que tem a ver com a reestruturação produtiva no campo e a divisão internacional da produção e do trabalho, na qual cabe ao Brasil a produção de commodities de origem agrícola. Esse contexto mais geral precisa ser considerado, assim como o entendimento do agronegócio não apenas em sua dimensão de latifúndios e monoculturas, mas também como um subsistema técnico e político que envolve o capital financeiro, a indústria química, a indústria de biotecnologia, sementes, fertilizantes, tratores, enfim, toda a indústria metal-mecânica. Esse contexto determina a vulnerabilidade das populações aos agrotóxicos. E que populações são essas? Temos em primeiro lugar os trabalhadores das empresas, mas também outros segmentos de trabalhadores que são influenciados por esse processo, como os pequenos produtores. No Ceará, os pequenos produtores foram colocados na condição de parceiros do agronegócio, o que na verdade é uma forma de terceirização. O cultivo de fumo no Rio Grande do Sul também é um exemplo disso, são pequenos produtores que estão completamente subordinados às exigências da indústria fumageira. Além desses trabalhadores, são atingidos os moradores dessas regiões. No Mato Grosso, há municípios completamente cercados pelo agronegócio, que atinge até mesmo a reserva do povo Xingu: há rios que nascem fora de sua área e cuja água já entra no território indígena contaminada por agrotóxicos. Há também a questão dos consumidores de alimentos, que têm uma ingestão diária aceitável de veneno. É o ‘veneno nosso de cada dia’ na alimentação. E, ainda, temos os trabalhadores que fabricam esses venenos. Há conflitos ambientais já identificados com esses trabalhadores de fábricas e as comunidades do entorno das fábricas, que são contaminadas. No nordeste, há uma fábrica de agrotóxicos que tem problemas sérios com 11 bairros na sua vizinhança por causa da sua contaminação atmosférica. Além disso, a questão dos agrotóxicos é abrangente porque vai nos ajudar a resgatar a interrelação campo e cidade. Na medida em que o país se urbaniza, tendemos a pensar o Brasil como um país urbano – e há uma conotação simbólica de que isso nos aproxima mais do perfil dos países desenvolvidos e deixa para trás o ‘atraso do campo’ –, perdendo de vista que há uma dinâmica rural-urbana fundamental. Isso se expressa na produção de alimentos, na manutenção de riquezas naturais como a água, os microclimas, as chuvas (importantes para a cidade e ‘produzidas’ no campo) e também do ponto de vista da organização do campo. A concentração de terra, que expulsa pessoas das áreas rurais, faz com que as cidades fiquem cada vez mais ingovernáveis, por causa da migração e de todos os processos de degradação da qualidade de vida, como a violência, as drogas e outros. Enfim, faz com que toda a problemática ambiental urbana cresça. Os agrotóxicos dão oportunidade para discutirmos tudo isso, e também para debatermos a ciência e seus limites hoje. Há substâncias químicas que nos mostram a insuficiência dos conhecimentos produzidos para que possamos ter alguma segurança ao lidar com elas. Um exemplo é o problema da exposição múltipla a vários ingredientes ativos, que ainda carece de respostas. São várias situações que nos colocam os limites da ciência e que também desafiam o Estado, porque não há como tratar os problemas dos agrotóxicos apenas como problema agrícola ou agrário, apenas como problema de saúde ou de meio ambiente. Esse é um problema que perpassa diversos setores das políticas públicas e exige uma atuação integrada, o que também é um exercício interessante de fazermos.
      Na cultura positivista que temos, existe uma certa tendência, tantos dos empresários como algumas vezes até da própria mídia, de procurar por agravos à saúde que pudessem ser atribuídos aos agrotóxicos, identificando e quantificando casos. É como se, para validar a questão dos agrotóxicos como um problema digno de atenção, relevante e urgente, dependêssemos disso, como se precisássemos ter geração e comprovação da doença para começarmos a pensar no assunto e nos problemas dos agrotóxicos. O problema dos agrotóxicos está dado a priori, porque ao defini-los como agrotóxicos estamos dizendo que são biocidas, que fulminam a vida, e ao atribuir a eles uma classificação toxicológica que vai de pouco tóxico a extremamente tóxico também estamos deixando isso claro. Não há nenhuma classificação que seja ‘não-tóxico’. O mesmo acontece em termos da classificação ambiental, que se relaciona à resistência do solo, e aos estudos da biomagnificação, teratogênese, mutagênese e carcinogênese [referentes ao acúmulo de produtos tóxicos ao longo da cadeia alimentar e à possibilidade de anomalias e malformações fetais, mutações genéticas e desenvolvimento de câncer]. Então, os agrotóxicos já estão classificados nesse sentido. Não há que se perguntar se são veneno ou remédio, está claro que são um tipo de veneno. Esse potencial de dano está dado, e defendemos que não precisaríamos provar a existência do dano para postergar políticas públicas e iniciativas dos agentes econômicos para combater esse problema. Poderíamos, desde já, estar trabalhando na perspectiva de que existe um risco e um contexto de risco, partindo para o controle desses riscos.

      Os efeitos crônicos causados pela exposição a agrotóxicos são muito diversificados. Cada composto e princípio ativo tem um perfil toxicológico e uma nocividade própria, e isso se relaciona a uma série de patologias que vão desde dermatoses até infertilidade, abortamento, malformações congênitas, cânceres, distúrbios imunológicos, endócrinos, problemas hepáticos e renais… Mas todas essas patologias têm etiologias variadas, o que significa que podem ser causadas por outros elementos que não os agrotóxicos. E, como somos acostumados a fazer raciocínio muito linear entre doença e agente causal, isso fica muito complicado. É possível, por exemplo, quando uma empresa quer se negar a assumir suas responsabilidades, que ela diga que o trabalhador teve uma leucemia porque a família tem carga genética para isso. Do ponto de vista epidemiológico, os estudos têm evidenciado essas correlações, demonstrando que populações mais expostas, comparando com não expostas, têm carga maior de doenças. Mas gerar essa informação é difícil. No caso do Ceará, o instituto que recebe a maioria dos cânceres hematológicos não tem na sua ficha de investigação o dado sobre a ocupação do trabalhador. Isso é um exemplo da dificuldade que existe para fazer um perfil que relacione a ocupação e, por consequência, o contato com agrotóxicos, a uma determinada doença.

      A ‘Revolução Verde’, que é o momento que marca na história da humanidade a questão dos agrotóxicos, aconteceu há cerca de 50 anos. A humanidade tem cerca de 8 mil anos de história conhecida na agricultura, e nós vivemos e nos alimentamos por todos esses milênios sem os agrotóxicos e transgênicos (o que é um outro argumento muito comum agora, de que, de repente, não podemos mais viver sem os transgênicos). É claro, há relatos de que desde os povos mais antigos havia uso de algumas substâncias para controle de pragas e de processos de cultivo, a humanidade tem um acúmulo nesse sentido. Estou me referindo a esse uso massivo de agrotóxicos, estimulado pela indústria química, que pode fazer propaganda na televisão, ter isenção de impostos como o ICMS, IPI, Cofins, PIS/Pasep. Então, a primeira coisa importante de tomarmos consciência é que já vivemos muitos anos como humanidade sem os venenos, e que depois do uso de venenos a produtividade da agricultura certamente elevou-se, mas a segurança e a soberania alimentar da humanidade não. Continuamos tendo quase um bilhão de pessoas desnutridas ou subnutridas no mundo, então está clara que essa não é uma crise que seja explicada pela subprodução, mas sim pela má distribuição. Isso se deve ao fato de que aquilo que o agronegócio e a modernização agrícola produzem não são alimentos, mas sim commodities, o que é muito diferente. Há todo um aparato jurídico, institucional, legal, para regular o uso de agrotóxicos e o que vemos é que esse aparato não tem sido eficaz. O que se vê é que, desde o processo de normatização, houve interferência. Temos documentos dos produtores de agrotóxicos em que afirmam a sua estratégia de interferir no processo regulatório, fazer lobby, interferir na capacitação dos servidores públicos e dos operadores de direito que lidam com essa área. Então, desde o início da regulação, há problemas. Quantos desses estatutos que estão previstos na legislação funcionam efetivamente? O receituário agronômico não funciona e há pouquísmos laboratórios, no país inteiro, que são capazes de fazer análise da água e da contaminação humana por agrotóxicos. Estamos agora no processo de revisão da Portaria 518, que diz respeito à potabilidade da água para consumo humano, e um dos grandes dramas é esse: podemos colocar lá todos os 450 ingredientes ativos de veneno registrados que temos no Brasil, mas onde vão ser analisados para cada uma das prefeituras de cada um dos quase 6 mil municípios do nosso país? Não temos essa capacidade instalada. Fazemos o licenciamento ambiental desse empreendimento, mas não temos condições de monitorar se as condicionantes e requisitos colocados no licenciamento são cumpridos, porque não há fiscal, não tem diária, não tem aparelho e laboratório. Há também uma série de argumentos que foram trazidos pelo Censo Agropecuário, através do qual podemos constatar que há mais de 5 milhões de estabelecimentos com mais de 16 milhões de trabalhadores rurais dos quais um número significativo é de crianças, com escolaridade considerada baixa. Como podemos pensar em uso seguro numa vastidão dessa? A assistência técnica é precária. O Censo mostra que as propriedades que mais receberam assistência são aquelas acima de 200 hectares, ou seja, há milhões de propriedades de pequenos produtores que estão à revelia de assistência técnica. Como podemos imaginar que o uso seguro acontecerá assim? Qualquer pessoa pode chegar a uma loja e comprar o veneno que o balconista estiver interessado em vender e usar do jeito que o balconista ensinar. É muito difícil pensar em uso seguro assim.

    • Amigo, o único trecho da sua descrição que discordo em parte é o item 2. Fiscalização existe. Basta denunciar ao IDAF de sua cidade que a apuração será feita. Ou então denuncie no fale conosco do site http://www.idaf.es.gov.br informando o local de aplicação e o aplicador. Pode denunciar também as lojas que fazem comércio clandestino.

      Att

  9. Muito triste a realidade do ES.
    Quando pensamos em pobreza e descaso, nossa imaginação viaja para longe, em países africanos ou para o Nordeste do Brasil.

    Mas isso acontece aqui bem perto de nós!

  10. Agrotóxicos não podem ser vistos apenas como um conjunto de substâncias químicas que podem causar riscos químicos à saúde. Eles precisam ser entendidos no contexto em que são utilizados, que envolve o processo de modernização agrícola conservadora em curso no Brasil, que tem a ver com a reestruturação produtiva no campo e a divisão internacional da produção e do trabalho, na qual cabe ao Brasil a produção de commodities de origem agrícola. Esse contexto mais geral precisa ser considerado, assim como o entendimento do agronegócio não apenas em sua dimensão de latifúndios e monoculturas, mas também como um subsistema técnico e político que envolve o capital financeiro, a indústria química, a indústria de biotecnologia, sementes, fertilizantes, tratores, enfim, toda a indústria metal-mecânica. Esse contexto determina a vulnerabilidade das populações aos agrotóxicos. E que populações são essas? Temos em primeiro lugar os trabalhadores das empresas, mas também outros segmentos de trabalhadores que são influenciados por esse processo, como os pequenos produtores. No Ceará, os pequenos produtores foram colocados na condição de parceiros do agronegócio, o que na verdade é uma forma de terceirização. O cultivo de fumo no Rio Grande do Sul também é um exemplo disso, são pequenos produtores que estão completamente subordinados às exigências da indústria fumageira. Além desses trabalhadores, são atingidos os moradores dessas regiões. No Mato Grosso, há municípios completamente cercados pelo agronegócio, que atinge até mesmo a reserva do povo Xingu: há rios que nascem fora de sua área e cuja água já entra no território indígena contaminada por agrotóxicos. Há também a questão dos consumidores de alimentos, que têm uma ingestão diária aceitável de veneno. É o ‘veneno nosso de cada dia’ na alimentação. E, ainda, temos os trabalhadores que fabricam esses venenos. Há conflitos ambientais já identificados com esses trabalhadores de fábricas e as comunidades do entorno das fábricas, que são contaminadas. No nordeste, há uma fábrica de agrotóxicos que tem problemas sérios com 11 bairros na sua vizinhança por causa da sua contaminação atmosférica. Além disso, a questão dos agrotóxicos é abrangente porque vai nos ajudar a resgatar a interrelação campo e cidade. Na medida em que o país se urbaniza, tendemos a pensar o Brasil como um país urbano – e há uma conotação simbólica de que isso nos aproxima mais do perfil dos países desenvolvidos e deixa para trás o ‘atraso do campo’ –, perdendo de vista que há uma dinâmica rural-urbana fundamental. Isso se expressa na produção de alimentos, na manutenção de riquezas naturais como a água, os microclimas, as chuvas (importantes para a cidade e ‘produzidas’ no campo) e também do ponto de vista da organização do campo. A concentração de terra, que expulsa pessoas das áreas rurais, faz com que as cidades fiquem cada vez mais ingovernáveis, por causa da migração e de todos os processos de degradação da qualidade de vida, como a violência, as drogas e outros. Enfim, faz com que toda a problemática ambiental urbana cresça. Os agrotóxicos dão oportunidade para discutirmos tudo isso, e também para debatermos a ciência e seus limites hoje. Há substâncias químicas que nos mostram a insuficiência dos conhecimentos produzidos para que possamos ter alguma segurança ao lidar com elas. Um exemplo é o problema da exposição múltipla a vários ingredientes ativos, que ainda carece de respostas. São várias situações que nos colocam os limites da ciência e que também desafiam o Estado, porque não há como tratar os problemas dos agrotóxicos apenas como problema agrícola ou agrário, apenas como problema de saúde ou de meio ambiente. Esse é um problema que perpassa diversos setores das políticas públicas e exige uma atuação integrada, o que também é um exercício interessante de fazermos.
    Na cultura positivista que temos, existe uma certa tendência, tantos dos empresários como algumas vezes até da própria mídia, de procurar por agravos à saúde que pudessem ser atribuídos aos agrotóxicos, identificando e quantificando casos. É como se, para validar a questão dos agrotóxicos como um problema digno de atenção, relevante e urgente, dependêssemos disso, como se precisássemos ter geração e comprovação da doença para começarmos a pensar no assunto e nos problemas dos agrotóxicos. O problema dos agrotóxicos está dado a priori, porque ao defini-los como agrotóxicos estamos dizendo que são biocidas, que fulminam a vida, e ao atribuir a eles uma classificação toxicológica que vai de pouco tóxico a extremamente tóxico também estamos deixando isso claro. Não há nenhuma classificação que seja ‘não-tóxico’. O mesmo acontece em termos da classificação ambiental, que se relaciona à resistência do solo, e aos estudos da biomagnificação, teratogênese, mutagênese e carcinogênese [referentes ao acúmulo de produtos tóxicos ao longo da cadeia alimentar e à possibilidade de anomalias e malformações fetais, mutações genéticas e desenvolvimento de câncer]. Então, os agrotóxicos já estão classificados nesse sentido. Não há que se perguntar se são veneno ou remédio, está claro que são um tipo de veneno. Esse potencial de dano está dado, e defendemos que não precisaríamos provar a existência do dano para postergar políticas públicas e iniciativas dos agentes econômicos para combater esse problema. Poderíamos, desde já, estar trabalhando na perspectiva de que existe um risco e um contexto de risco, partindo para o controle desses riscos.

    Os efeitos crônicos causados pela exposição a agrotóxicos são muito diversificados. Cada composto e princípio ativo tem um perfil toxicológico e uma nocividade própria, e isso se relaciona a uma série de patologias que vão desde dermatoses até infertilidade, abortamento, malformações congênitas, cânceres, distúrbios imunológicos, endócrinos, problemas hepáticos e renais… Mas todas essas patologias têm etiologias variadas, o que significa que podem ser causadas por outros elementos que não os agrotóxicos. E, como somos acostumados a fazer raciocínio muito linear entre doença e agente causal, isso fica muito complicado. É possível, por exemplo, quando uma empresa quer se negar a assumir suas responsabilidades, que ela diga que o trabalhador teve uma leucemia porque a família tem carga genética para isso. Do ponto de vista epidemiológico, os estudos têm evidenciado essas correlações, demonstrando que populações mais expostas, comparando com não expostas, têm carga maior de doenças. Mas gerar essa informação é difícil. No caso do Ceará, o instituto que recebe a maioria dos cânceres hematológicos não tem na sua ficha de investigação o dado sobre a ocupação do trabalhador. Isso é um exemplo da dificuldade que existe para fazer um perfil que relacione a ocupação e, por consequência, o contato com agrotóxicos, a uma determinada doença.

    A ‘Revolução Verde’, que é o momento que marca na história da humanidade a questão dos agrotóxicos, aconteceu há cerca de 50 anos. A humanidade tem cerca de 8 mil anos de história conhecida na agricultura, e nós vivemos e nos alimentamos por todos esses milênios sem os agrotóxicos e transgênicos (o que é um outro argumento muito comum agora, de que, de repente, não podemos mais viver sem os transgênicos). É claro, há relatos de que desde os povos mais antigos havia uso de algumas substâncias para controle de pragas e de processos de cultivo, a humanidade tem um acúmulo nesse sentido. Estou me referindo a esse uso massivo de agrotóxicos, estimulado pela indústria química, que pode fazer propaganda na televisão, ter isenção de impostos como o ICMS, IPI, Cofins, PIS/Pasep. Então, a primeira coisa importante de tomarmos consciência é que já vivemos muitos anos como humanidade sem os venenos, e que depois do uso de venenos a produtividade da agricultura certamente elevou-se, mas a segurança e a soberania alimentar da humanidade não. Continuamos tendo quase um bilhão de pessoas desnutridas ou subnutridas no mundo, então está clara que essa não é uma crise que seja explicada pela subprodução, mas sim pela má distribuição. Isso se deve ao fato de que aquilo que o agronegócio e a modernização agrícola produzem não são alimentos, mas sim commodities, o que é muito diferente. Há todo um aparato jurídico, institucional, legal, para regular o uso de agrotóxicos e o que vemos é que esse aparato não tem sido eficaz. O que se vê é que, desde o processo de normatização, houve interferência. Temos documentos dos produtores de agrotóxicos em que afirmam a sua estratégia de interferir no processo regulatório, fazer lobby, interferir na capacitação dos servidores públicos e dos operadores de direito que lidam com essa área. Então, desde o início da regulação, há problemas. Quantos desses estatutos que estão previstos na legislação funcionam efetivamente? O receituário agronômico não funciona e há pouquísmos laboratórios, no país inteiro, que são capazes de fazer análise da água e da contaminação humana por agrotóxicos. Estamos agora no processo de revisão da Portaria 518, que diz respeito à potabilidade da água para consumo humano, e um dos grandes dramas é esse: podemos colocar lá todos os 450 ingredientes ativos de veneno registrados que temos no Brasil, mas onde vão ser analisados para cada uma das prefeituras de cada um dos quase 6 mil municípios do nosso país? Não temos essa capacidade instalada. Fazemos o licenciamento ambiental desse empreendimento, mas não temos condições de monitorar se as condicionantes e requisitos colocados no licenciamento são cumpridos, porque não há fiscal, não tem diária, não tem aparelho e laboratório. Há também uma série de argumentos que foram trazidos pelo Censo Agropecuário, através do qual podemos constatar que há mais de 5 milhões de estabelecimentos com mais de 16 milhões de trabalhadores rurais dos quais um número significativo é de crianças, com escolaridade considerada baixa. Como podemos pensar em uso seguro numa vastidão dessa? A assistência técnica é precária. O Censo mostra que as propriedades que mais receberam assistência são aquelas acima de 200 hectares, ou seja, há milhões de propriedades de pequenos produtores que estão à revelia de assistência técnica. Como podemos imaginar que o uso seguro acontecerá assim? Qualquer pessoa pode chegar a uma loja e comprar o veneno que o balconista estiver interessado em vender e usar do jeito que o balconista ensinar. É muito difícil pensar em uso seguro assim.

    Do ponto de vista da Política Nacional de Saúde do Trabalhador, existem ações previstas que vão desde a atenção básica – que seria principalmente através da Estratégica de Saúde da Família – até os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerests), com ações hierarquizadas. A proposta é muito interessante. Mas o que vemos, é que a forma como o SUS chega aos territórios que sofreram profundas transformações pelos processos de mordenização agrícola é insuficiente. Os profissionais da atenção primária estão completamente absorvidos pela assistência médica, têm pouco tempo de fazer as outras ações pensadas para sua atuação e conhecem muito pouco a dinâmica viva dos territórios em que as unidades de saúde estão inseridas. Então, têm poucas notícias sobre a instalação de empresas de agronegócio, não sabem se há trabalhadores migrantes que vêm para atender demanda de força de trabalho sazonal, para, por exemplo, a colheita do cafe (que é um caso muito comum), que estão sem suas famílias e que isso causa a expansão de uma rede de prostituição — o que gera outros problemas, como gravidez indesejada na adolescência, uso de drogas, doenças sexualmente transmissíveis, inclusive Aids. Então, para o sistema de saúde que está ali absorvido em diagnosticar e tratar doenças – embora estejamos tentando superar esse paradigma, isso nem sempre é possível –, é difícil enxergar essas dinâmicas. A resposta às novas necessidades de saúde tem sido insuficiente, é isso que mostrou o estudo realizado pela Vanira Mattos na UFC. Nos Cerests, há experiências ricas pelo Brasil afora. Ainda não conseguimos, ao longo dos três anos da nossa pesquisa, envolvê-los no atendimento a esses trabalhadores, nem desenvolver conjuntamente as ações de vigilância sanitária, epidemiológica, ambiental e em saúde do trabalhador, que ainda não estão acontecendo adequadamente.

  11. É um assunto sério, muito boa a matéria!
    Seria importante também realizar uma matéria sobre a produção de alimentos orgânicos, para conhecimento da população, locais onde comprar, etc.
    Costumo dar preferência para os alimentos orgânicos, mesmo sendo mais caro, mas é difícil encontrar determinados produtos no supermercado e na feira, tais como: pimentão, morango, entre outros. Fica a dica !

  12. É muito triste o fato de pessoas trabalharem com agrotóxicos,sem usar o Equipamentos de Proteção Individual.
    Creio que o Governo,por meio da Secretaria da Saúde e também da Secretaria de Segurança aliados ao Ministério do Trabalho,tomar atitudes que possam resolver esse gravíssimo problema.
    Pergunto: essas autoridades estão fazendo “vista grossa”?
    Como evitar que as pessoas se suicidem?
    Existe algum programa voltado à prevenção?
    Educar ,fiscalizar,punir os que não fornecem o EPI.

  13. A mídia também tem um papel fundamental nesse processo…

    Campanhas televisivas tem alto alcance e pode gerar um grande impacto divulgando esses problemas.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *