Pornografia de vingança

O papel da escola e dos pais no combate à pornografia de vingança

A menina lá da escola tirou uma foto pelada e começou a ser zoada. As fotos foram divulgadas pelo WhatsApp e pelo Facebook também. Ela ia mandar para o namorado. Z., estudante

Texto: Laila Magesk e Leonardo Soares
Vídeos: Danilo Meirelles
Fotos: Edson Chagas e Vitor Jubini
Diagramação web: Natalia Bourguignon

Quando era criança, onde você brincava? A resposta mais comum é: na rua. E qual era o papel dos pais enquanto você estava brincando? Eles, vez ou outra, iam conferir o que você estava fazendo. Mas essa situação mudou com o passar do tempo. O maior espaço para troca de ideias e experiências foi parar dentro do seu bolso e na tela do computador. E, claro, sem aquela fiscalização eficiente dos pais.

Trazendo as mesmas características da rua – com enorme fluxo de desconhecidos, bons e ruins –, a internet também abriga criminosos, que têm no anonimato e na distância física a segurança de que precisavam para planejar e cometer seus crimes. O grande desafio de pais e da escola é afastar crianças e adolescentes dessa situação.

“Atualmente nada se agravou, só ganhou mais visibilidade. E esse contato está aí, facilmente acessível para adolescente, adulto, seja lá quem for”, explica a psicóloga Isabel Girão.

E assim como a rua sempre foi um território encantador, a internet também é. A web dá a falsa impressão de que ninguém está vendo o que você faz. Em muitos casos, os adolescentes só conseguem identificar os limites do que pode e o que não pode quando se tornam vítimas, comenta o especialista em crimes eletrônicos Eduardo Pinheiro Monteiro.

“Há pouco tempo, uma mãe me ligou para contar que a filha de 12 anos tirou 15 fotos nua e enviou para um colega da escola. A mãe ficou horrorizada e tentou conversar com a menina, mas a adolescente nem mesmo se espantou. Aí percebemos que essa menina não tem a menor noção do estrago que isso pode fazer”, comenta Eduardo.

Se fosse deixar uma mensagem seria: 'Não posta isso na internet, porque não tem como voltar a trás' y., estudante

Pai atento

O papel da família na orientação e na vigilância dos filhos é fundamental para que os crimes virtuais entre adolescentes – que só têm aumentado – diminua. Mas a geração que é responsável por evitar os riscos não consegue acompanhar o ritmo dos jovens na internet. “Os pais estão aprendendo a lidar com essa tecnologia. É um tipo de fiscalização diferente, que não passou de geração a geração, como era antes”, explica Isabel Girão.

Como muitos pais não conseguiram se adaptar à web, eles se deparam com um novo universo estranho e dominado pelo filho. Eles precisariam entender para poder agir. “Essa ‘rua nova’, onde você pode fazer um monte de coisas sem ninguém ver, seduz tanto os pais quanto os filhos”, alerta a psicóloga.

Mas mesmo sem dominar o mundo virtual, os pais acabam sabotando a própria vigilância. Eles dão presentes tecnológicos aos filhos cada vez mais cedo e não dão as orientações sobre a forma correta de utilizar os equipamentos, segundo Eduardo Monteiro.

“Os pais têm sua parcela de responsabilidade. Não estão dando orientações. Por exemplo, por qual motivo um adolescente de 13 anos precisa de celular com internet? E se precisa, por qual motivo ele tem que levar para a escola, se lá é um ambiente que ele não pode usar?”, questiona Eduardo.

O mesmo vale para o computador. Nesses casos, os pais devem estar atentos ao comportamento do filho. “Se o adolescente se trancou no quarto, eles precisam saber o que o jovem está fazendo lá dentro. Se ele passa a tarde inteira na internet, você precisa acompanhar. Algo está errado”, afirma.

E por mais que esse seja um grande desafio do nosso tempo, esforce-se, porque com um simples clique – até inocente – a vida do seu filho pode mudar completamente.

Você tem que pensar muito antes de agir, porque não tem volta. Se mandar para vários celulares, não tem como excluir. Tem que pensar nas consequências x., estudante

Polícia e escolas juntas contra os crimes virtuais

O projeto da Polícia Civil “Internet Segura para Adolescentes” vai a escolas públicas e privadas orientar sobre as armadilhas e riscos da web. As palestras já chegaram a mais de 318 mil crianças e adolescentes em todo o Espírito Santo. “Esse projeto tem contribuído decisivamente para a redução de jovens nessa faixa etária envolvidos em crimes virtuais no Estado. O índice foi reduzido de 38%, em 2006, para pouco mais de 19%, em 2013”, afirma o investigador e palestrante Eduardo Pinheiro Monteiro.

A orientadora educacional do Darwin de Vila Velha, Denise Ahouagi, afirma que toda rede de escolas adotou a iniciativa, e os resultados são muito positivos. “São mostradas situações de pedofilia, para que eles possam entender que essas coisas acontecem dentro da casa da gente”, alerta.

Antes de deixar o filho usar o Facebook, por exemplo, que nas condições de uso diz não ser indicado para menor de idade, os pais devem explicar os riscos e vigiar. “Na correria do dia a dia, muitos não percebem que o que acontece lá fora pode bater na porta deles”.

Durante a comemoração de oito anos do projeto, estudantes de 14 a 16 anos, de escolas públicas de Vitória, contaram ao Jornal A GAZETA o que sabem sobre o assunto. Algumas das impressões dos jovens você encontra espalhadas pelo texto.

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