Crack invade o interior

Texto: Vilmara Fernandes ([email protected])
Fotos e vídeos: Carlos Alberto Silva ([email protected])

Entre uma pedra e outra de crack, ainda com a voz arrastada, a jovem de 21 anos lamenta suas perdas: “Meu filho, meu marido, meu casamento. Perdi tudo”. As mãos cobertas de anéis que envolvem o cachimbo são os únicos vestígios de vaidade em um corpo que vem sendo consumido pelo vício. Para mantê-lo, Joana (nome fictício) se prostitui: “Cobro 40 reais: dez para o lanche, vinte para o hotel e fumo o resto”.

Cobro 40 reais: dez para o lanche, vinte para o hotel e fumo o resto Joana, usuária de crack e prostituta

A revelação é feita em uma casa abandonada, usada por ela e outros tantos usuários. Um ambiente onde a fumaça da pedra se mistura ao mau cheiro de fezes humanas, ao lixo e à umidade das paredes. É ali, no chão, espremida num cantinho que a jovem e seu amigo João, de 25 anos, experimentam seus momentos de prazer extremo. “Véio, quanto mais fuma, mais dá vontade”, diz ele, cujo nome também é fictício para preservar suas identidades.

Avanço

A cena descrita, comum na Grande Vitória, foi acompanhada por nossa equipe em uma cidade do interior. O casal de usuários vive nas ruas de São Mateus, mas começou a fumar crack há quase cinco anos nas comunidades onde moravam com suas famílias, no interior de Linhares e de Rio Bananal.

O que demonstra que o crack, que surgiu no Estado por volta da metade da década de 1990 – dez após chegar ao país –, vem se alastrando pelo interior do Estado.

Segundo levantamento realizado pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM), com informações das prefeituras, 17 cidades do Espírito Santo apresentam alto nível de problemas decorrentes do consumo de crack. Outras 32 estão em nível de risco médio, o que indica que quase dois terços dos 78 municípios capixabas enfrentam sérios problemas com a droga.

Realidade

Uma realidade que A GAZETA foi conferir. Durante duas semanas do último mês de novembro, nossa equipe visitou oito municípios presentes no mapeamento do crack: Sooretama, Pinheiros, São Mateus e Conceição da Barra, no Norte do Estado, além de Ibitirama, Divino São Lourenço, Guaçuí e Bom Jesus do Norte, no Sul.

Em sua maioria, as cidades mais afetadas por este tipo de droga – que ganhou o nome de crack pelo barulho que faz ao queimar –, têm menos de 30 mil habitantes. Locais onde todos se conhecem e têm medo de falar sobre o que acontece. “Quem fala corre risco”, diz uma professora de Conceição da Barra que pediu para não ser identificada.

Acharam que ele tinha dedurado a boca pra polícia. Mataram um homem honesto e trabalhador João, morador de Sooretama, perdeu um familiar por causa das drogas

Ela vive na zona rural, em uma comunidade com cerca de 70 habitantes. Relata que há situações em que os traficantes buscam os adolescentes até dentro dos ônibus escolares: “Tem pais que já tiraram seus filhos do transporte”.

Uma situação que leva a população a se isolar atrás dos muros altos, das janelas gradeadas e das cercas elétricas que já fazem parte da paisagem do interior. “Estamos com a casa toda gradeada e eles estão livres”, pontua João, que teve um familiar assassinado, com cinco tiros, em Sooretama

. “Acharam que ele tinha dedurado a boca para a polícia, mas não era verdade. Mataram um homem honesto e trabalhador”, desabafa, sem conseguir conter as lágrimas.

Nestas localidades não se encontram cracolândias, mas há bairros de periferia, venda de drogas nas esquinas, presença de aviõezinhos nas ruas. Algumas são fechadas à noite para tentar impedir a passagem da polícia. Há prostituição nas praças e até na porta das igrejas e a degradação física dos usuários.

Cenas vistas no Norte e no Sul do Estado. “Cerca de 90% dos que foram presos ultimamente são deste bairro (Planeta)”, relata um empresário (que pediu para não ser identificado) ao mostrar para nossa equipe a situação de alguns bairros, à noite, em Guaçuí. “O crack chegou há uns seis anos e já temos usuários pobres, ricos, mulheres e jovens”, diz, confirmando o que já é apontado em diversos estudos: a droga, que fez suas primeiras vítimas entre os mais pobres, hoje está presente em todas as cidades e camadas sociais.

Um cenário que se alastra para a zona rural, onde os traficantes ameaçam até familiares. “Às vezes a gente até pensa em colocar prá fora de casa”, desabafa um pai, em uma roça de Pinheiros. Há onze anos ele luta para resgatar o filho, agora ameaçado por dívidas com o tráfico.

Ano a ano a situação se agrava com a chegada de trabalhadores de outros estados para as colheitas, como a do café e a da cana, que lançam mão do crack para ter um pique maior de trabalho. Outro problema é que parte destes trabalhadores não vão embora quando a colheita termina.

Sem qualificação e chances de emprego, encontram no tráfico uma alternativa rentosa. “Em geral os mais vulneráveis são os mais suscetíveis a abordagem dos traficantes”, pondera o delegado Everton Mauro Fernandes, da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes (Deten).

Sem futuro

O que acirra os problemas que já existem nestas regiões, como a falta de perspectivas – educacionais, profissionais e de lazer – para os jovens, o desemprego, a violência e as dificuldades de infraestrutura e de recursos.

A população também se ressente da ausência da autoridade policial. Há localidades distantes dos centros municipais e até mesmo sedes de municípios que não contam com uma delegacia da Polícia Civil – como é o caso de Divino São Lourenço – ou de um posto da Polícia Militar. “Aqui não tem autoridade. A polícia vem de longe”, conta Jorge Moraes, que reside em São José, a mais de 20 quilômetros da sede de Ibitirama.

Não há estudos no Brasil e no Estado que indiquem o número de usuários de drogas. O último levantamento realizado pela Fiocruz estima que nas capitais brasileiras eles cheguem a 370 mil. Na região Sudeste são 113 mil. O mesmo estudo aponta que a maior são jovens, e cerca de 14% deles são menores de idade.

Não é diferente no interior do Espírito Santo, onde o consumo das drogas começa cedo. “Temos um paciente de 11 anos”, relata Dreele Mendonça, coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Guaçuí. Um fase, explica, em que o tratamento é ainda mais complicado: “É uma criança que não chegou na fase de degradação da droga e não entende que ela é ruim”.

Cedo também se envolvem em crimes, ou são mortos. Como os filhos da dona de casa Romilda Barcelos, um de 25 e outro de 28, que morreram este ano com um intervalo de quatro meses. “Começaram novinhos. Achavam que nada aconteceria a eles.”

Sem contar os casos que surpreendem até a polícia: “Em uma ocorrência observamos que, pelo comportamento, o menor era o chefe dos adultos, que dele tinham medo”, relata Renam Albuquerque, delegado de São Mateus.

Para vencer as drogas, muitos usuários dependem dos serviços públicos de saúde. Uma rede focada nos Centro de Atenção Psicossocial (CAPs) e que não existe em vários locais. Das 17 cidades com alto risco de problemas de consumo de crack, apenas duas declararam ter este tipo de atendimento e somente seis disseram ter programas de enfrentamento ao crack.

Em muitos municípios a opção acaba sendo a internação via leitos públicos, sempre escassos. No desespero, algumas famílias apelam para a Justiça. Até dezembro deste ano, a Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) estima que vão ser internados compulsoriamente 1.500 pacientes.

Dificuldades

Sair sozinho a pessoa não consegue João*, viciado em crack

Outra alternativa vem do trabalho social de igrejas e de alguns setores, como a maçonaria, ou de grupos, como Alcoólicos Anônimos (AA), que nem sempre judacontam com apoio municipal para sua criação. Há pacientes que chegam a viajar até 300 quilômetros para acompanhar uma reunião do grupo.

São dificuldades que vão limitando as chances de quem deseja abandonar o vício e seus sonhos. “Sair sozinho a pessoa não consegue”, pondera João, enquanto fuma mais uma pedra na casa abandonada em São Mateus. Ele sonha em recomeçar a vida na casa dos pais. Joana, ao seu lado, que juntar dinheiro para ver o filho. Quando a nóia passa, os dois concluem: “É difícil, muito difícil.”

Tráfico avança pelas águas tranquilas do rio Itabapoana

A polícia aponta para um grupo de jovens às margens do Rio Itabapoana, em Bom Jesus do Norte, que faz a divisa do Sul do Estado com o Rio de Janeiro. Naquele trecho, durante o período de seca, as partes mais rasas são utilizadas para a travessia de pedras de crack. Na mesma cidade, uma apreensão da droga veio com uma recomendação no saquinho: “O Ministério da Saúde adverte: esta droga mata”.

São exemplos de que tanto nos grandes centros quanto no interior, as atividades do tráfico são pontuadas por audácia.

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Rota

Bom Jesus, segundo a polícia local, está na rota das drogas, até por sua proximidade com outros centros cariocas, como Itaperuna e Campos, sem contar os acessos a outras cidades capixabas, como Cachoeiro, Guaçuí e Guarapari. “Aqui lançam mão de táxi, ônibus, barco, mulas. Atravessam o rio até durante o dia”, relata o investigador Cláudio Gualandi.

A ligação com o Rio é garantida por duas pontes e uma passarela localizada em um bairro com alto problemas de venda e uso de drogas. Até durante o dia, percorrendo as ruas, é possível identificar a movimentação do tráfico. Num bairro próximo chegaram a pintar nas ruas que a polícia iria morrer.

A região onde os jovens estavam fica na área rural. Com a aproximação da polícia os grupos começaram a se dispersar. “Já devem ter se desfeito de tudo”, observou o policial ao se referir à droga que possivelmente estava sendo transportada.

Um empreendimento de lazer na mesma região acabou sendo fechado em decorrência da movimentação do tráfico. “Contamos com a ajuda da polícia do Rio, mas não é possível estar em todos os pontos da divisa”, destacou o investigador.

Filme

No Norte, em uma localidade no interior de São Mateus, após ser assaltado 17 vezes, desde 2002, um comerciante recebeu uma carta escrita com letras recortadas de uma revista.

A ameaça “você vai morro” – com erro de ortografia – foi entregue em um envelope deixado na porta do comércio após a polícia realizar uma reunião de segurança com os moradores e empresários locais, há cinco meses.

Na comunidade o comércio tem dificuldades até para contratar funcionários. “São muitos jovens que já estão envolvidos com as drogas e o tráfico e não querem trabalhar”, relatou um comerciante que pediu para não ser identificado.

No interior de Ibitirama, na comunidade de São José, uma pequena igreja católica, no alto de um morro, precisou ser murada. A segurança será ampliada também para o cemitério local. (VIDEO IGREJA MURADA)

Os usuários se reuniam em suas calçadas laterais e até embaixo das árvores de seu pátio para fazer o uso de drogas. “Não roubaram nada, mas não dava para continuar daquele jeito”, explicou Jorge Moraes da Costa, cafeicultor e morador da região.

Ajuda

Em São Mateus, uma universitária foi assaltada pelos traficantes do próprio bairro. Dela levaram o celular que tinha acabado de comprar. Ela procurou a polícia. “Sabia onde o aparelho podia ser encontrado porque reconheci o assaltante”, relatou a jovem, não identificada por segurança.

Na delegacia foi informada de que não havia viaturas para ajudá-la. Foi quando ela decidiu procurar os traficantes. Teve que passar por duas bocas e por um extenso interrogatório. “Eles disseram que era proibido assaltar gente do bairro”, conta a jovem. Revoltados com situação, acrescenta ela, os traficantes pagaram para reaver o aparelho que a ela foi devolvido.

Dois dias depois ela soube que o assaltante levou uma surra e, um mês depois, estava morto. No interior do Estado, assim como na Grande Vitória, imóveis abandonados acabam sendo utilizados como pontos de uso de droga. É o que ocorreu, por exemplo, com uma escola e um galpão de uma unidade de saúde em Bom Jesus do Norte.

Em outras situações, segundo relatos da polícia, proprietários que também são usuários cedem o espaço em troca de pedras. Um exemplo vem de Sooretama, onde uma residência visitada por nossa equipe estava sendo utilizada por várias usuárias mulheres. Uma delas, segundo moradores, tinha assumido o tráfico no lugar do marido, que estava preso.

* Esta reportagem contou com a colaboração de Mikaella Campos, Natália Bourguignon, Edson de Melo, Aglisson Lopes e Danilo Meirelles

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8 Respostas

  1. É desse tipo de reportagem que nosso País esta precisando. Verdadeira, aqui no meu Município, Conceição da Barra, a droga esta destruindo os adultos, jovens e até as crianças. O futuro do Município, já esta comprometido pelo grande número de pessoas dominadas pelas drogas e que já perderam a capacidade produtiva, vivendo da prática de crimes. Há casos em que quase todos os integrantes da família, são viciados. O País, os Estados e os Municípios, precisam com urgência, criar mecanismos legais para cuidar desse desastre que as drogas estão causando a sociedade, porque se continuar como esta, dentro de poucos anos, ou talvez meses, será tarde demais

  2. Enquanto não tratarmos traficantes com braço de ferro e deixá-lo apodrecer na cadeia será este inferno! Mudança no Código Penal já!!

  3. Parabens plea reportagem. É lamentavel tanta corrupcao, tanto dinheiro, sendo roubado dos cofres publicos, tanto dinheiro que poderia estar sendo empregado, no combate e recuperacao dessas pessoas.

  4. Parabens pela reportagem, moro nos EUA, e sempre acompanho as noticias do Brasil, fiquei muito triste ao saber que o crack esta acabando com os jovens e destruindo familias, o pais tem que urgente buscar alternativas para acabar com o trafico de drogas, esse e um problema social, e o governo tem que agir com mais rigor, inclusive nas leis penais.

  5. Parabéns pela reportagem!

    O problema não é somente o crack, a idolatria ao álcool que estamos vivendo, banaliza o uso de substâncias entorpecentes, mostrando a crianças, jovens e adultos que é normal fugir da realidade. Para a indústria do álcool que vive disso, quanto mais melhor, e esta é a mensagem transmitida por músicas e progagandas de TV. Para os traficantes esta lógica é igualmente lucrativa, pois usuários de cocaína geralmente utilizam esta droga sob efeito de álcool e sempre em grandes quantidades. No fim da linha, no fundo do poço dessa idolatria, que diz que é bonito deixar a mente em stand by, vem o crack. Como diz o rapper Criolo “O governo quer acabar com o crack, mas não tem moral pra vetar comercial de cerveja…”

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