Mar de esgoto

Próximo do esgoto e bem longe da saúde

Meus filhos já tiveram hepatite e precisaram ser internados. Sem contar os problemas com diarreia, vômito e micose Raquel
Natália Bourguignon
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Vilmara Fernandes
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Às margens de um mar de lixo, esgoto e animais mortos vive a dona de casa Raquel Gomes, de 41 anos, e seus quatro filhos. Quem passa por lá nem de longe imagina que aquele é o Rio Formate, localizado na divisa entre Cariacica e Viana. Nele é lançado a maior parte dos dejetos das casas da região.

Situação que é realidade em boa parte do Estado, onde 64 municípios não tratam esgoto. Neste total há 27 cidades que nem coletam os dejetos, segundo dados de 2013 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamernto (SNIS).

Além da poluição que atinge e destrói importantes mananciais responsáveis pelo abastecimento da população, principalmente num momento de seca, há os graves problemas de saúde causados pela falta de saneamento.

A família de Raquel é um exemplo. “Meus filhos já tiveram hepatite e precisaram ser internados. Sem contar os problemas com diarreia, vômito e micose”, conta a mãe, cujo filho mais novo tem 6 anos.

E eles não são os únicos. Relato semelhante também foi feito pela dona de casa Simone Oliveira dos Santos, 46 anos, em Barramares, Vila Velha. Metade da rua onde mora há nove anos é ocupada por um valão com o esgoto do bairro.

Há sete anos seu filho caiu no valão. Em decorrência do acidente, teve micose, febre, diarreia, infecção e perdeu parte da audição do ouvido direito. “Vivemos em um abandono total”, resume a mãe.

Problemas

De acordo com Luiz Henrique Barbosa Borges, infectologista da equipe do Hospital Metropolitano, quem vive em locais onde o esgoto é a céu aberto está sujeito a uma série de doenças que levam a anemias, desnutrição e até à morte. Dentre elas se destacam as micoses e as parasitárias, causadas por vermes e protozoáreios, como a giárdia, as amebas, lombrigas, dentre outras, muito relacionado à sujeira.

Sem contar as causadas por vírus, como a hepatite, e as bacterianas, como as desinterias e até diarreias mais graves, que podem até levar à morte.

Doenças que hoje estão mais restritas aos bolsões de pobreza, não alcançados ainda pelo esgotamento sanitário. “Um absurdo”, pondera o médico, lembrando que estas são doenças totalmente preveníveis, mas que esta parte da população a elas está sujeita. “É um total descumprimento das leis. A constituição federal garante o direito a saúde a todos”, acrescenta o médico.

Outro problema é que em boa parte destes locais há muito acúmulo de lixo. O que leva estas famílias a conviverem com outros problemas graves: mau cheiro intenso e a presença frequente de insetos, mosquitos e roedores. “A casa vive cheia de barata e rato. Aparece até cobra quando chove”, conta Raquel.

esgoto16Números

De acordo com dados do Instituto Trata Brasil, no Estado o número de internações por doenças infecciosas em 2013 foi de 4.764. Cerca de 978 delas poderiam ter sido evitadas.

Outro dado que chama a atenção são os dias de afastamento por diarreia e vômito e que poderiam ser evitados com a universalização do saneamento. No Estado eles foram estimados em 23.705 dias. Deste total, 4.320 poderiam ter sido evitados.

O total de horas perdidas no ano com afastamentos por diarreia foide 3.542.202. Considerando a hora do salário – R$ 8,70, a preços de 2013 – o custo anual com horas não trabalhadas foi de R$ 30,83 milhões.

Na educação o impacto também é grande. É alto o número de crianças e adolescentes que precisam faltar aula por causa das doenças relacionadas à falta de saneamento básico.

Segundo o levantamento, os alunos que vivem em áreas sem coleta e tratamento de esgoto, faltam mais as aulas e estão atrasados em relação aos outros alunos, que vivem em condições adequadas, pois as crianças tem um desempenho escolar comprovadamente menor. No estado este atraso foi estimado em 4,18 anos.

As informações são provenientes do cruzamento de dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, do Ministério das Cidades, e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Multa para moradores

A Prefeitura de Vitória quer multar os moradores que não fizerem suas ligações à rede de esgoto. A penalização será feita de acordo com o grau de poluição do imóvel, com valores entre R$ 600 a R$ 20 mil.

De acordo com Sérgio Peterle, assessor de Projetos Especiais da Secretaria de Gestão Estratégica de Vitória, foram identificados cerca de 15 mil imóveis em áreas nobres que ainda não tinham feitos suas ligações à rede. A essas pessoas foi dado um prazo de 90 dias. “Depois o responsável pelo imóvel é notificado, pois passa a cometer crime ambiental”, explicou Peterle.

Incentivo

Na avaliação de Peterle, o maior incentivo para a população fazer suas ligações é poder usar a praia com uma condição de balneabilidade. Acrescentou que na Grande São Pedro e na Grande Santo Antônio está quase pronta a estação de tratamento, que deverá ser entregue até o final do ano. A expectativa, segundo o assessor, é de que Vitória se torne a primeira capital com 100% de esgoto coletado e tratado.

Na Serra as ligações à rede de esgoto para imóveis localizados em áreas carentes, segundo informou a Prefeitura, é feita de forma gratuita.

Acrescentou que são feitas ações de conscientização e educação ambiental envolvendo os moradores a fazerem suas ligações à rede. Não há multa para quem não as faz, mas o cidadão pode ser multado por descumprir os prazos estabelecidos para fazer a ligação.

Viana espera concluir, até o próximo ano, as obras de instalação da rede de coleta na cidade, evitando que o esgoto seja despejado no Rio Jucu. O investimento é de R$ 14 milhões. Segundo a Prefeitura, paralelo as obras será feito um trabalho para incentivar os moradores a fazerem a ligação de suas casas à rede de esgoto. Estuda ainda um projeto de lei quanto à obrigatoriedade desta ligação.

Carentes

Cariacica informou que a responsabilidade pela ampliação da rede no município é da Cesan. Nos bairros carentes, acrescenta, é feita a ligação gratuita dos imóveis à rede.

Vila Velha informa que a fiscalização na cidade é rotineira e o valor da multa para quem não faz as ligações chega a R$ 681, aplicada quando o morador não atende os prazos para regularização da situação. Há plano de gratuidade para 42 bairros.

Santa Leopoldina, Região Serrana do Estado, confirma que a maior parte do esgoto da cidade é jogado no Rio Santa Maria da Vitória por falta de rede de esgoto local. O município estuda a implantação de um projeto em parceria com a Cesan e a Funasa, e se prepara para elaborar o seu Plano de Saneamento Básico.

Na cidade existe uma estação de tratamento de esgoto, cuja obra ainda não foi concluída. Na zona rural, está sendo incentivado o uso de fossas sépticas.

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