Mar de esgoto

No Estado, 37 cidades não tratam esgoto

Você vai tomar banho e acha um monte de lixo, fralda descartável, cocô que eles jogam na beira do rio. E tem muita gente que bebe dessa água ainda. Maria Aparecida, mora as margens do rio Mangaraí

Natália Bourguignon
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Vilmara Fernandes
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Fotos: Marcelo Prest

Quando criança, a dona de casa Maria Aparecida Pereira adorava se banhar nos rios de Santa Leopoldina, região Serrana do Estado. Hoje sua filha Jéssica, de 11 anos, reclama que as águas do Rio Mangaraí, que dá nome a localidade onde moram, “está rabugenta”. É a forma que a menina encontrou para definir a gordura presente na água, que a incomoda: “Fica grudenta, fedida”.

A cidade onde as duas vivem é um dos 27 municípios capixabas que não possuem nem coleta e nem tratamento de esgoto. Tudo o que é produzido nas residências e comércios é jogado diretamente nos rios e córregos. Os dados são do Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS), de 2013. O Espírito Santo é o que tem o menor índice de coleta de esgoto na Região Sudeste – 41,93%. Do que é coletado, trata 77%.


Esgoto – Santa Leopoldina por GazetaOnline

Descarte

A situação é mais complicada no interior do Estado. Há quinze cidades, por exemplo, que chegam a coletar os dejetos, mas descartam mais de 50% do material coletado sem nenhum tratamento.

No caso de Santa Leopoldina, cortada por um dos principais rios que abastecem a Grande Vitória – o Santa Maria da Vitória – não é difícil perceber a ausência de esgotamento sanitário. Basta andar pelas ruas da cidade, observando os córregos e rios, para perceber a quantidade de canos que saem diretamente das casas para os rios.

Um reflexo, explica Roberto Dias Ribeiro, presidente do Comitê da Bacia do Rio Santa Maria da Vitória, da falta de alternativas para a população. “Tirando uns poucos moradores que possuem fossas sépticas, os 95% restante lançam esgoto no Santa Maria”, diz, acrescentando que é nesse rio que os córregos, assim como o Rio Mangaraí e outros afluentes, desaguam.

Longe

Em outras 37 cidades capixabas há coleta, mas o esgoto é apenas afastado para longe das manchas urbanas, e sem tratamento acaba indo parar nos rios que abastecem os municípios.

Dos 78 municípios, apenas sete estão entre os que mais coletam e tratam o esgoto, apresentando médias superiores a 70%. Desses, possuem os melhores índices Governador Lindenberg, com 94,48%, e Jerônimo Monteiro, com 86,64%. Não há registro de nenhuma cidade que colete e trate 100% dos dejetos.

Há os casos curiosos que recolhem 100% do esgoto e não tratam nada, ou tratam menos de 10% dos dejetos.

Entre os grandes centros fora da Grande Vitória, Cachoeiro tem cobertura superior a 70%, e Linhares chega a 57%. Já em Colatina ela é de 4,51%, e em São Mateus não chega a 1%.

Projetos

Na última semana o governo anunciou um novo programa de esgotamento, com implantação de estações de tratamento e redes coletoras, voltado para nove municípios do interior localizados no entorno das bacias dos rios Santa Maria da Vitória e Jucu, além da Região do Caparaó.

As ações, com recursos do Banco Mundial, vão beneficiar nove dos 37 municípios que não contam com tratamento de esgoto. Para os demais, não há expectativa de projetos, recursos ou mesmo alternativas.

Destruição dos rios prejudica moradores

“O que vamos deixar para os nossos filhos”, questiona Abraão Manoel Araújo, de 68 anos. Metade da vida do comerciante foi passada na Vila de Mangaraí, Santa Leopoldina, de onde acompanhou de perto a destruição do rio que dá nome à comunidade. “Até poltrona velha jogam nessas águas, sem contar o esgoto”, relata.

Ele aponta vários trechos do manancial onde a vida está sendo afetada pela falta de cuidados. “Há anos se fala em preservação, mas o que se vê é só destruição”, diz Abraão, ao mostrar um cano onde jorra todo o esgoto da região no Rio Mangaraí.

Bem em frente ao local vive Wagner Souza Simies, 33 anos, a esposa e um casal de filhos. Vizinha à casa está localizado o bar da família. Seus clientes, relata, muito reclamam do mau cheiro. “E a quantidade de mosquito?”, questiona.

Na última enchente, conta Wagner, as águas invadiram seu comércio e deixou sua casa ilhada. “O esgoto lançado no rio voltou para nossas casas. Só era possível sair com água na metade do corpo. Muita gente ficou doente, com diarreia e micose”, relata.

Crescimento

Uma situação que precisa mudar com urgência, destaca Dias. Ele lembra que Santa Leopoldina é uma cidade antiga, construída às margens do rio e que, como tantas outras, tradicionalmente nele sempre lançou seus dejetos.

Ao longo dos anos, explica Dias, pouco foi feito para reverter o quadro. “Não se avançou nas obras e não há uma perspectiva de solução a curto prazo, diz, acrescentando que a situação não é pior porque a população da cidade não tem crescido muito nos últimos anos. “O desenvolvimento parou, basta observar o IDH”, diz.

Bem diferente, explica, com Santa Maria de Jetibá, cidade vizinha, cujo esgotamento não está dando conta do crescimento populacional da cidade e onde já há bairros que lançam todo o esgoto no Rio Santa Maria da Vitória. “Neste trecho do rio a situação fica cada dia mais complicada”, destaca.

Santa Leopoldina foi incluída entre as cidades que vão ser alvos de um novo programa de esgotamento anunciado pela Cesan. O projeto deve ser executado em seis anos, mas não há prazo para as obras começarem.

Promessas

Há ainda um projeto piloto específico para o Rio Mangaraí. O problema, destaca Dias, é que promessa semelhante já havia sido feita há seis anos pela própria Cesan. “E nada aconteceu”, relata.

O projeto do Mangaraí, segundo ele, é um exemplo. “Não é novidade. Já vem sendo desenvolvido há quase dois anos”

Para Dias, a solução para muitos municípios do interior passa pelo fortalecimento dos comitês de bacias e o desenvolvimento de seus planos de ações. “Foi o que conseguimos concluir agora”, assinala.

Aliado a isso, é preciso, segundo ele, implantar a cobrança de outorga pelo uso da água e a criação de agências de água de um ou mais rios. Ações, que no futuro, podem chegar a permitir que os comitês auxiliem os municípios até na obtenção de recursos para construção de suas próprias redes de saneamento. Uma forma de não ficarem reféns de programas que nem sempre alcançam todas as cidades.

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5 Respostas

  1. É uma vergonha saber que o Espírito Santo recebeu recursos do PRODESPOL e PRODESAN e o dinheiro sumiu. Os responsáveis por estes programas na época enriqueceram e as poucas obras que foram feitas não tinham destinação para as Estações de Tratamento de água. Estes ladrões tinham que ser investigados e condenados a devolver os milhões desaparecidos.

  2. Infelizmente isso esta se generalizando em todo o Brasil, são arrecadados milhões pelo Estado e pouco se faz. A saúde é prioridade e cuidando da natureza já é começo.

  3. Excelente e importantíssima matéria. Mas para que pagamos o taxa de tratamento de esgoto a Cesan? Essa chega a ser 80% do preço da água, não é isso? Gostaria de ter lido sobre dados mais detalhados município a município do Estado. Fica a dica.

  4. Em Santa Leopoldina existe uma estação de tratamento da CESAN na entrada da Cidade. Cobrei de Bragato quando ele era presidente da CESAN a ligação das casas na estação de tratamento, na época o investimento era da ordem de R$ 200 mil. O tempo passou e nada foi feito. O último investimento em saneamento foi feito pelo ex-deputado federal João Miguel Feu Rosa, que destinou R$ 3 milhões para que fosse feito a rede de esgotamento sanitário, falta ligar à estação de tratamento.
    Marcos Barros
    FM Santa Leopoldina

  5. O Mais engraçado é que em Cariacica muitos bairros pagam taxa de esgoto e o esgoto é jogado na maré!!!!! pagamos para a Cesan jogar o esgoto na maré!!

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